
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, cresceu no Recife, viveu no Rio de Janeiro, casou com um diplomata e passou quinze anos na Europa e nos Estados Unidos. Morreu no Rio em 1977, um dia antes de completar 57 anos. Entre a chegada ao Brasil como bebê de dois meses e a morte, ela escreveu nove romances, cinco livros de contos e trabalhou como jornalista por décadas. Nada disso prepara adequadamente para a leitura dos livros.
A origem
Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 em Tchetchelnik, na Ucrânia, então parte do Império Russo em colapso. A família Lispector — Mania, Pedro (Pinkas) e as filhas Lênia e Tânia — era judaica ashkenazi que fugia dos pogroms que devastavam comunidades judaicas no período pós-Primeira Guerra.
A família chegou ao Brasil em 1922, quando Clarice tinha menos de dois meses. Foram primeiro para Maceió e depois para o Recife, onde o pai abriu um negócio de compra e venda de mercadorias. A mãe, Mania, estava gravemente doente desde antes da imigração — tinha sífilis — e morreu em 1930, quando Clarice tinha nove anos. A perda da mãe é uma das marcas mais profundas na obra de Clarice.
A formação no Rio de Janeiro
A família mudou-se para o Rio de Janeiro em 1935. Clarice estudou no Colégio Andrews e depois se inscreveu na Faculdade Nacional de Direito — uma das poucas mulheres da turma. Na faculdade, começou a publicar textos em jornais e revistas e a frequentar o círculo literário do Rio, onde conheceu escritores como Lúcio Cardoso.
Em 1943, com 23 anos, publicou Perto do Coração Selvagem — seu primeiro romance. A reação da crítica foi de admiração desconcertada: o livro não se parecia com nada que havia sido publicado no Brasil até então. Sérgio Milliet, crítico influente da época, escreveu que era um livro “desconcertante e belo”.
O casamento e os anos no exterior
Em 1943, o mesmo ano da publicação do primeiro romance, Clarice casou com Maury Gurgel Valente, diplomata que havia conhecido na faculdade. O casamento significou quase 15 anos fora do Brasil — Nápoles, Berna, Torquay, Washington. Foram anos de produção literária importante (A Maçã no Escuro foi escrita em Washington) mas também de isolamento e insatisfação crescente.
O casal teve dois filhos — Pedro e Paulo. Clarice separou-se em 1959 e voltou definitivamente ao Rio de Janeiro, com os dois filhos e sem emprego estável.

O acidente e os últimos Anos
Em setembro de 1966, Clarice adormeceu com um cigarro aceso e acordou em chamas. O incêndio queimou gravemente sua mão direita — ela quase perdeu os dedos — e deixou cicatrizes permanentes. O acidente mudou sua vida prática (escrever à máquina tornou-se doloroso) e também sua vida pública: Clarice ficou mais reclusa nos anos seguintes.
Nos últimos anos de vida, trabalhou como jornalista — escreveu uma coluna de cartas para leitores no Jornal do Brasil sob pseudônimo, além de entrevistas e crônicas. Publicou Água Viva (1973) e A Via Crucis do Corpo (1974) antes de A Hora da Estrela (1977), seu último romance publicado em vida.
Morreu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos, de câncer ovariano. Enterrada no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
O Legado
Clarice Lispector é hoje considerada a maior escritora da literatura brasileira do século XX e uma das vozes mais originais da ficção em língua portuguesa de todos os tempos. Sua obra foi traduzida para dezenas de idiomas — a edição americana de A Hora da Estrela pela New Directions ganhou novos leitores nas últimas décadas, e A Paixão Segundo G.H. é estudada em universidades de todo o mundo.
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