
Em janeiro de 1943, poucos dias depois de se naturalizar brasileira — um passo necessário para poder se casar com um diplomata —, Clarice Lispector assinou os papéis de casamento com Maury Gurgel Valente. Os dois haviam se conhecido nos corredores da Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, onde ambos estudavam. Nenhum dos dois imaginava que aquele casamento levaria a escritora, ainda no começo da carreira, para viver dezesseis anos fora do país. As biografias literárias de Clarice costumam se concentrar na estreia com “Perto do Coração Selvagem” e na construção de uma obra única na língua portuguesa. Mas por trás da autora existiu uma mulher com endereço fixo em embaixadas, dois filhos pequenos para criar em países estrangeiros e uma vida doméstica bem diferente do que a imagem pública sugere.
Um casamento que virou passaporte
Maury Gurgel Valente entrou para o Itamaraty em 1940, ainda cursando Direito. Em 1943, ano do casamento, foi designado para atuar como agente de ligação entre o Ministério das Relações Exteriores e autoridades estrangeiras em Belém do Pará — o primeiro de muitos deslocamentos que marcariam a vida do casal. Dali em diante, a carreira diplomática do marido passou a ditar o endereço da família.
A rotina de trocar de país a cada poucos anos tirou Clarice do circuito literário e intelectual do Rio de Janeiro justamente quando sua carreira começava a ganhar corpo. Ela seguiu escrevendo em meio às mudanças, mas em cartas e entrevistas não escondeu o desconforto com o papel social esperado de uma esposa de diplomata — recepções, jantares, protocolo.
Nápoles, Berna, Torquay, Washington
A primeira parada no exterior foi Nápoles, na Itália, em 1944, onde Maury serviu no consulado brasileiro. Foi um período de guerra: Clarice chegou a atuar como voluntária em um hospital que cuidava de soldados brasileiros feridos na campanha da Itália, uma experiência que ela citaria depois como uma das mais marcantes da época.
Na sequência vieram Berna, na Suíça, onde o casal morou entre 1946 e 1949, e Torquay, na Inglaterra, por volta de 1950 e 1951, quando Maury atuou como delegado em negociações ligadas ao GATT, o antigo acordo internacional de comércio. A etapa mais longa foi Washington, nos Estados Unidos, entre 1952 e 1959: o casal chegou a comprar uma casa na região de Chevy Chase, em Maryland, e foi lá que Clarice viveu boa parte da década de 1950.
Em cartas a amigos brasileiros, ela descreveu a experiência europeia com um misto de isolamento e tédio — chegou a chamar a temporada suíça de algo como um cemitério de sensações. A vida diplomática garantia conforto material, mas também a distância da língua, dos amigos e da cena literária que ela ajudava a construir do outro lado do Atlântico.
Pedro e Paulo, os dois filhos
Foi nesse período fora do Brasil que Clarice teve os dois únicos filhos. Pedro nasceu em 1948, em Berna. Paulo veio depois, em 1953, já em Washington. Os meninos cresceram ouvindo português em casa e línguas estrangeiras na rua, entre trocas de escola e de continente.
Paulo Gurgel Valente se tornou, décadas depois, uma das principais vozes na preservação do acervo da mãe, dando entrevistas e assinando textos sobre a obra e a trajetória dela. Em relatos públicos, ele descreve uma mãe atenta às questões sociais do país mesmo à distância — inclusive pedindo a ele, ainda criança, que ajudasse a formular perguntas para uma entrevista jornalística que faria com um ministro do governo brasileiro.
Pedro teve uma trajetória mais dolorosa. Já na adolescência, depois do retorno da família ao Brasil, ele desenvolveu esquizofrenia, com episódios que se tornaram cada vez mais difíceis de administrar. Clarice dedicou parte significativa de seus últimos anos aos cuidados com o filho, um capítulo de sua biografia que raramente aparece nos resumos sobre a carreira literária, mas que pesou de forma real sobre sua rotina e sua saúde emocional.
O fim do casamento e a volta ao Rio
Em 1959, depois de dezesseis anos de casamento, Clarice deixou Maury Gurgel Valente e voltou ao Rio de Janeiro com os dois filhos. Foi o fim formal da vida diplomática e também de um relacionamento que, segundo relatos posteriores da própria escritora, nunca se encaixou de fato com sua necessidade de escrever e de existir fora do papel de anfitriã de embaixada.
De volta à cidade, ela se instalou no bairro do Leme, onde viveria pelos quase trinta anos seguintes, até a morte, em 1977. Foi ali, sem o protocolo diplomático, que Clarice retomou de vez o lugar de escritora em tempo integral — e também de mãe solo, responsável sozinha pela casa e pelos dois meninos.
Cigarro, cachorro e um livro de receitas inesperado
A imagem doméstica de Clarice guarda algumas curiosidades que contrastam com a fama de escritora hermética. Ela fumava muito — um hábito que quase lhe custou a vida em 1966, quando pegou no sono com um cigarro aceso depois de tomar um sonífero. O incêndio no quarto provocou queimaduras graves e a deixou hospitalizada por cerca de dois meses.
Também teve um cão, Ulisses, que se tornou quase um personagem da própria obra — apareceu em crônicas, no romance póstumo “Um Sopro de Vida” e como narrador do livro infantil “Quase de Verdade”. Em uma entrevista à revista O Pasquim, nos anos 1970, Clarice foi fotografada com o cachorro cercada de bitucas de cigarro, cena que resume bem o cotidiano fumante da casa. Hoje, uma estátua de bronze dela ao lado de Ulisses fica na praia do Leme, próxima de onde morava.
Já a fama de dona de casa nos fogões não se sustenta muito bem. O próprio Paulo Gurgel Valente contou ao biógrafo Benjamin Moser que a mãe raramente preparava algo além de café. Por isso surpreendeu tanto a redescoberta, no início de 2026, de um exemplar de “Cozinha para Brincar”, livro de receitas infantis publicado em 1970 pelo Centro de Economia Doméstica da Nestlé, com ilustrações de Odiléa Setti Toscano e assinado por Clarice. O exemplar apareceu em uma feira de antiquário no bairro do Bixiga, em São Paulo, e chegou às mãos de Moser justamente por trazer a assinatura da escritora na primeira página. Para especialistas, o texto tem a marca inconfundível do estilo dela — e o trabalho encomendado provavelmente respondeu a uma necessidade financeira concreta, logo depois do divórcio, quando Clarice virou a única responsável pelo sustento da casa.
A mulher que ficava de fora das orelhas dos livros
Nenhum desses detalhes substitui a importância da obra de Clarice Lispector. Mas eles ajudam a completar um retrato que costuma parar na escritora genial e enigmática, deixando de lado a mulher que trocou de país seis vezes, criou dois filhos em línguas diferentes, se separou de um diplomata para poder escrever em paz e ainda assim raramente aparecia na cozinha — a não ser, uma vez, para assinar um livro de receitas que ninguém esperava encontrar meio século depois.
Veja também quem foi Clarice Lispector e a lista completa de sua obra. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.
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