
Em algum momento da década de 1950, em Washington, um menino de cinco anos perguntou à mãe por que ela só escrevia livros para adultos. Nenhum para crianças. A mãe era Clarice Lispector, então casada com um diplomata e havia poucos anos publicara “Perto do Coração Selvagem”. O filho se chamava Paulo. E a pergunta, guardada por mais de uma década antes de virar livro, deu início a uma faceta da obra de Clarice que segue pouco lembrada: ela escreveu, ao todo, cinco livros infantis.
Nenhum deles chega perto da fama de “A Hora da Estrela” ou “A Paixão Segundo G.H.” Mas não são obras menores, nem versões simplificadas da Clarice adulta. São textos que carregam a mesma língua nervosa, a mesma recusa em explicar demais, a mesma disposição para tratar o leitor — de qualquer idade — como alguém capaz de pensar sozinho.
Um coelho, uma gaiola e a pergunta que começou tudo
“O Mistério do Coelho Pensante” foi escrito ainda nos anos 1950, durante o período em que Clarice morava nos Estados Unidos, e ficou guardado por anos antes de sair pela editora José Álvaro, em 1967 — seu primeiro livro infantil publicado. A curiosidade é de bastidor: o texto nasceu originalmente em inglês, resposta direta à pergunta do filho Paulo, e o narrador da história recebeu o mesmo nome dele.
A trama segue Joãozinho, um coelho branco que “cheirava ideias” e vive trancado numa gaiola, buscando um jeito de escapar. É um livro construído como conversa — o texto se dirige ao leitor, convoca, pergunta de volta. Nada de moral pronta no fim. A saída do coelho é um exercício de imaginação em tempo real, e Clarice trata a criança do outro lado da página como uma parceira de raciocínio, não como alguém que precisa ser instruído.
A confissão por trás de um peixe morto
Em 1968 saiu “A Mulher que Matou os Peixes”, talvez o mais pessoal dos cinco. A abertura é uma confissão direta: essa mulher que matou os peixes, lamenta a narradora, sou eu, infelizmente. Clarice havia esquecido de alimentar o peixinho vermelho dos filhos, e o animal morreu. Em vez de esconder o episódio ou disfarçá-lo em desculpa, ela transformou a culpa em matéria de livro.
O que poderia ser um incidente doméstico menor vira ponto de partida para uma sequência de histórias entrelaçadas, povoadas de outros bichos e outras pequenas culpas. A morte do peixe, que dá título ao livro, quase se dissolve no meio de tantas outras histórias — e é isso que o torna interessante: Clarice não usa a culpa para pedir desculpa às crianças, usa a culpa como matéria-prima de narrativa, com a mesma seriedade que dedicaria a qualquer sentimento adulto.
A galinha que pensa a vida — e a morte
“A Vida Íntima de Laura”, de 1974, é o terceiro livro infantil da autora e tem como protagonista uma galinha. O tom segue a mesma lógica dos anteriores: um narrador que conversa de perto com quem lê, sem o didatismo comum ao gênero na época. O que chama atenção é a disposição de Clarice para tocar em temas raramente admitidos na literatura infantil brasileira daquele momento — entre eles, o medo da morte —, sempre de forma lúdica e reflexiva, nunca simplificada a ponto de subestimar a inteligência de quem lê.
É um traço que atravessa os cinco livros: Clarice não rebaixa o vocabulário nem a complexidade emocional só porque o público é jovem. A diferença, segundo ela mesma chegou a comentar, estava em outro lugar — escrever para criança era, para ela, um exercício mais fácil e mais materno; escrever para adulto exigia mergulhar na parte mais difícil de si mesma.
Um cachorro narrador e uma alegoria sobre poder
“Quase de Verdade” chegou às livrarias em 1978, um ano depois da morte de Clarice, em dezembro de 1977 — publicação póstuma, portanto. O livro é narrado por Ulisses, o cachorro que viveu com a autora, e reúne contos de tom alegórico, entre eles a história de uma figueira que escraviza galinhas.
Lido no contexto em que foi escrito — o Brasil dos anos 1970, sob censura e regime de exceção —, o livro ganha uma camada extra: a alegoria da árvore que domina as galinhas soa como uma reflexão sobre poder e submissão, dita em linguagem infantil justamente porque driblar a vigilância exigia isso. Não é a leitura óbvia à primeira página, mas é a que os pesquisadores da obra de Clarice mais sustentam — mais um sinal de que, também aqui, ela não escrevia pensando em um leitor menor.
Doze lendas encomendadas por uma fábrica de brinquedos
O último dos cinco é também o de origem mais inusitada. “Como Nasceram as Estrelas: Doze Lendas Brasileiras” nasceu de uma encomenda comercial: a fábrica de brinquedos Estrela pediu à autora textos para ilustrar um calendário, um conto para cada mês do ano. Clarice reescreveu, à sua maneira, doze lendas do folclore brasileiro.
Os textos só viraram livro, de fato, em 1987 — dez anos depois da morte da autora. É o mais tardio dos cinco a chegar às prateleiras, e também o que menos parece, à primeira vista, “um livro de Clarice”: em vez da voz confessional e do narrador que se expõe, aqui ela empresta sua escrita a histórias que já existiam, recontando-as com a mesma atenção à linguagem que aplicava ao resto da obra.
Por que vale a pena ler — com ou sem criança por perto
Colocados lado a lado, os cinco livros desenham um mapa que atravessa quase toda a vida adulta de Clarice como escritora: começam nos anos 1950, em Washington, e só se fecham dez anos após sua morte, com “Como Nasceram as Estrelas”. No meio do caminho, um coelho preso numa gaiola, um peixe morto por esquecimento, uma galinha que pensa a própria mortalidade, um cachorro que narra uma fábula sobre poder.
Nenhum desses livros pede desculpa por ser sério. É esse, talvez, o motivo mais forte para apresentá-los a uma criança hoje — e para um leitor adulto de Clarice reservar um fim de tarde a eles. Não como curiosidade de rodapé numa bibliografia dominada por romances, mas como parte legítima de uma obra que, em qualquer formato, sempre tratou quem lê como alguém capaz de pensar junto.
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