
Em 1943, uma estudante de Direito de 23 anos publicou seu primeiro romance no Brasil e a crítica literária brasileira não soube exatamente o que fazer com ele. Sérgio Milliet o chamou de “desconcertante e belo”. Outros críticos compararam com Virgínia Woolf e Joyce. Ninguém tinha um vocabulário completamente adequado para descrever o que Clarice Lispector havia feito — porque ninguém havia feito antes, em português, aquilo que Perto do Coração Selvagem fazia.
Oitenta anos depois, o livro continua desconcertante e belo. E continua sendo uma das estreias mais impressionantes da literatura brasileira.
O que o livro é
Perto do Coração Selvagem acompanha Joana, primeiro como menina, depois como mulher adulta, através de cenas fragmentadas, memórias, pensamentos, conversas. Não há uma trama linear no sentido convencional. O que existe é o movimento da consciência de Joana, que observa o mundo com uma intensidade que as pessoas ao redor não conseguem acompanhar nem entender.
O título vem de James Joyce de uma passagem de A Portrait of the Artist as a Young Man que Clarice usou como epígrafe. A referência é honesta: o que Clarice faz em termos de técnica narrativa vem diretamente da tradição do modernismo anglo-americano. Mas o que ela faz com essa técnica, o universo que ela constrói é completamente dela.

Joana
Joana é uma protagonista impossível de fixar. Ela observa, sente, pensa com uma precisão que assusta as pessoas ao redor. Como criança, incomoda os adultos ao fazer perguntas que não têm resposta satisfatória. Como adulta, casa e trai e parte — não por crueldade mas porque a vida que construiu não corresponde à intensidade que ela sente que existe em algum lugar, para além do cotidiano.
O final do livro no monólogo de Joana antes de partir, sozinha, para o que seja que vem a seguir é um dos finais mais poderosos da literatura brasileira. “Algum dia virei a minha fome e o que fizer isso também será o meu alimento.”

Para quem é
Para leitores que já têm alguma familiaridade com Clarice e querem entender de onde veio. Para leitores interessados no modernismo brasileiro. Para quem quer ler cronologicamente. Não é o melhor ponto de entrada — comece com Laços de Família ou A Hora da Estrela — mas depois de um ou dois livros, Perto do Coração Selvagem revela como o estilo já estava completo desde o início.
Ficha do livro
| Título | Perto do Coração Selvagem |
| Autora | Clarice Lispector |
| Publicação | 1943 |
| Editora atual | Rocco |
Veja o guia completo de Clarice Lispector e os melhores livros da autora. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.
Leia também:
Todos os Livros de Clarice Lispector: Lista Completa com Romances, Contos e Crônicas
Por onde começar a ler Clarice Lispector: O guia definitivo por perfil
Ordem de leitura de Clarice Lispector: Guia por nível e sequência Ideal
Quem Foi Clarice Lispector: Biografia da maior escritora brasileira do século XX
Envie para
um amigo
Seja um apoiador
Ao se tornar um apoiador, você passa a receber conteúdos exclusivos e participa de sorteios e promoções especiais para apoiadores.