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Laços de Família: Resenha do Livro de Contos de Clarice Lispector

Os contos que definiram Clarice: tensão, silêncio e o cotidiano que esconde o abismo

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Laços de Família: Resenha do Livro de Contos de Clarice Lispector
Laços de Família — Clarice Lispector (Cansei de Ser Pop)

Há uma cena em “Amor”, o conto mais famoso de Laços de Família, em que Ana, dona de casa no Rio de Janeiro, com filhos e marido, uma vida organizada, está no bonde, voltando do mercado, e vê um cego mascando chiclete na parada. O momento é breve. Mas algo acontece: a ordem do mundo de Ana desmorona naquele instante. O que ela vê no cego: a brutalidade, a beleza, a indiferença da vida; é tudo que ela passou a vida inteira construindo uma rotina para não ter que ver. Clarice Lispector escreveu esse conto em 1952. Em 1960, publicou em Laços de Família junto com outros doze. Cada um é uma versão diferente do mesmo movimento: alguém sendo tirado, por um instante, do mundo que construiu para proteger a si mesmo.

Por Que É o Melhor Ponto de Entrada

A vantagem dos contos para um leitor novo em Clarice é estrutural: cada história tem entre 8 e 20 páginas. Você entra, vive a epifania com o personagem, e sai. Se um conto não pega, o próximo pode. E Laços de Família tem treze portas, cada uma abre para um ângulo diferente do estilo de Clarice.

Mas também é o melhor ponto de entrada porque a maioria dos contos é tecnicamente mais acessível que os romances. Clarice usa aqui o mesmo fluxo de consciência, as mesmas epifanias, a mesma atenção ao corpo e à percepção mas em doses menores, com estruturas que permitem ao leitor se orientar antes de se perder.

Banner com as edições comemorativas dos livros A Via Crucis do Corpo, A Hora da Estrela e Água Viva, de Clarice Lispector, acompanhado do texto "Conheça a Edição Comemorativa".
As edições comemorativas das obras de Clarice Lispector celebram o legado de uma das maiores escritoras da literatura brasileira, com projetos gráficos especiais e acabamento de coleção. Imagem: Divulgação | Edição: Agência CSP

Os Contos Essenciais

“Amor” — O conto-chave do livro. Ana no bonde, o cego, o Jardim Botânico. A melhor demonstração de como Clarice transforma o cotidiano em epifania.

“Feliz Aniversário” — Uma matriarca de 89 anos observa sua família reunida para o jantar de aniversário. É o conto mais ferozmente irónico do livro — e um dos mais engraçados, se você entender que o humor é preto.

“A Imitação da Rosa” — Laura, que acabou de sair de uma internação psiquiátrica, olha para um vaso de rosas na sala e começa a desmoronar. O conto mais assustador do livro — não pelo que acontece, mas pelo que está prestes a acontecer.

“Os Laços de Família” — O conto que dá título ao livro. Uma filha, a mãe, o marido — numa cena de partida numa estação de ônibus que revela três formas de solidão.

“Uma Galinha” — Uma galinha escapa do abate, é recapturada, bota um ovo e é perdoada — temporariamente. Um dos contos mais simples do livro e um dos mais perfeitos.

Ficha do Livro

TítuloLaços de Família
AutoraClarice Lispector
Publicação1960
Editora atualRocco
Contos13 histórias

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