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Epifania e Fluxo de Consciência: a Técnica Por Trás da Escrita de Clarice Lispector

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Epifania e Fluxo de Consciência: a Técnica Por Trás da Escrita de Clarice Lispector
Como a técnica do fluxo de consciência constrói as epifanias de Clarice.

Uma dona de casa vê um cego mascando chiclete num bonde e o chão desaba sob os pés dela. Uma mulher esmaga uma barata na porta de um armário e, num gesto que ainda hoje incomoda quem lê pela primeira vez, prova a matéria branca que escorre do inseto. Nenhuma dessas cenas resolve um conflito de enredo. Nenhuma delas empurra a história adiante no sentido convencional. E é exatamente por isso que elas são o motor de tudo o que Clarice Lispector escreveu: não o que acontece, mas o instante em que alguém percebe algo que não pode mais deixar de ver.

A epifania que Clarice importou de Joyce e reformulou à sua maneira

No conto “Amor”, publicado em “Laços de Família”, Ana é uma dona de casa de classe média que organizou a vida em torno da rotina doméstica — o marido, os filhos, as compras da semana. Voltando de bonde, ela avista um homem cego mascando goma. A cena é banal. Não deveria significar nada. Mas alguma coisa naquele gesto — um cego que masca chiclete “sem sofrimento, com os olhos abertos” — atinge Ana como um soco. Ela desce do bonde no ponto errado, caminha até o Jardim Botânico e passa a enxergar o mundo doméstico que construiu como uma cegueira sua, não do homem. No fim do conto, tomada pela culpa, ela volta para casa e deixa a família apagar aquilo que viu.

Esse tipo de estrutura — uma situação cotidiana, um detalhe insignificante que detona uma percepção súbita, e uma personagem que sai daquele instante transformada, mesmo que volte a se acomodar depois — é o que a teoria literária chama de epifania. O termo é religioso na origem (a manifestação de algo divino) e foi transportado para a literatura por James Joyce, que o usava para descrever momentos em que a essência de algo comum se revela de repente, sem aviso, através de um gesto trivial ou de uma frase ouvida ao acaso. Não é uma revelação grandiosa como as de um mito: é pequena, cotidiana, quase vergonhosa de tão simples — e é justamente essa desproporção entre o estímulo (um cego mascando chiclete) e o efeito (uma crise existencial inteira) que dá à epifania sua força.

Clarice não inventou a técnica, mas fez algo que é só dela: enquanto em Joyce a epifania costuma iluminar um personagem sobre o mundo à sua volta, em Clarice ela quase sempre volta a personagem para dentro de si mesma, para uma pergunta sobre a própria identidade que não tinha sido feita antes. E, de forma recorrente em contos como “Amor” e em outros de “Laços de Família”, a revelação não liberta ninguém. A personagem enxerga o abismo, recua, e a vida doméstica se fecha de novo sobre ela — só que agora ela sabe que aquele fechamento é uma escolha, não um destino.

A barata na porta do armário: quando a epifania vira corpo

Se em “Amor” a epifania nasce de um olhar, em “A Paixão Segundo G.H.” ela nasce do nojo. A protagonista, uma escultora identificada só pelas iniciais do nome, entra no quarto vazio da empregada que acabou de se demitir, esperando encontrar um cômodo simples e organizado. Em vez disso, encontra um espaço quase abstrato, e dentro do armário, uma barata saindo lentamente de uma fresta. G.H. fecha a porta sobre o inseto, esmagando-o pela metade. O corpo do animal fica ali, entre morto e vivo, expelindo uma massa branca.

A partir desse ponto o romance deixa de contar uma história e passa a narrar uma experiência mística em tempo real: G.H. observa a barata por páginas inteiras, atravessa o nojo, a repulsa, o medo de perder a própria humanidade diante daquele organismo primitivo — até que, no gesto mais controverso do livro, chega a provar a matéria branca que sai do inseto. É o oposto do clímax de ação que qualquer manual de roteiro pediria. Nada “acontece”, no sentido de virar a trama para outro lugar. O que acontece é inteiramente interno: G.H. atravessa nojo, horror e, por fim, uma espécie de comunhão com a vida na sua forma mais nua e menos humana, sem nome, sem categoria — só matéria viva.

É o mesmo mecanismo de “Amor” levado ao limite: um estímulo mínimo (um inseto, algo que qualquer pessoa esmagaria sem pensar duas vezes) provoca uma desproporção enorme de sentido. A diferença é de intensidade e de duração — a epifania de Ana dura o tempo de uma tarde; a de G.H. ocupa um livro inteiro, porque Clarice não está mais interessada em narrar o momento da revelação, e sim em ficar dentro dele, esticá-lo, escrever a partir de dentro da própria epifania enquanto ela ainda está acontecendo.

Quando o enredo desaparece: o fluxo de consciência em “Água Viva”

Esse impulso de ficar dentro do instante, em vez de narrá-lo depois, é o que leva Clarice a um território ainda mais radical em “Água Viva”. O livro não tem enredo no sentido tradicional: não há uma sequência de eventos que leva de um ponto A a um ponto B. Uma narradora, pintora, dirige-se a um interlocutor ausente e vai registrando pensamentos, sensações e imagens conforme eles surgem, sem a arquitetura de capítulos, sem a lógica causal que rege um romance comum. O texto avança por associação, não por causa e efeito — uma frase puxa outra pelo som, pela imagem, pela ideia que ela desperta, e não porque a história “precisa” continuar.

Essa técnica — tentar reproduzir na página o movimento real do pensamento, com suas repetições, seus desvios, sua recusa em obedecer à gramática da narrativa linear — é conhecida como fluxo de consciência. O termo vem da psicologia (foi cunhado pelo filósofo William James para descrever como a mente funciona, em fluxo contínuo, não em frases organizadas) e virou técnica literária nas mãos de autores como Virginia Woolf e William Faulkner, que a usaram para colocar o leitor dentro da cabeça de um personagem em tempo real, sem o filtro organizador de um narrador que resume e explica depois.

A versão de Clarice em “Água Viva” tem uma particularidade: onde Woolf e Faulkner geralmente aplicam o fluxo de consciência a um personagem específico, dentro de uma história que ainda existe ao redor dele, Clarice dissolve a própria história. Não há enredo para o fluxo interromper porque o fluxo é o livro inteiro. A pontuação, quando aparece, funciona mais como respiração do que como organização lógica da frase — vírgulas que separam impressões, não orações subordinadas. O efeito é o de uma escrita que se recusa a fingir que o pensamento é ordenado, sequencial, terminado.

Duas técnicas, um só projeto

Epifania e fluxo de consciência parecem, à primeira vista, ferramentas diferentes — uma trabalha com o momento pontual de revelação, a outra com a duração contínua do pensamento. Mas em Clarice elas nascem do mesmo lugar: a desconfiança de que a vida “com enredo”, organizada em começo, meio e fim, é uma mentira confortável que se conta sobre a experiência real de estar vivo. Ana, no bonde, tem uma epifania porque a rotina que ela vivia era, ela descobre, uma ficção que contava para si mesma. G.H. mergulha numa epifania que dura um livro porque a linguagem civilizada não dá conta do que ela encontra dentro do armário. E a narradora de “Água Viva” abandona o enredo de vez, porque percebeu que a própria ideia de contar uma história em sequência já distorce o que ela quer capturar.

É por isso que ler Clarice pela técnica, e não só pelo tema, muda a experiência do texto. As epifanias dela raramente resolvem alguma coisa — ao contrário do que o senso comum às vezes espera de um “momento de virada”, suas personagens frequentemente recuam, voltam para a rotina, escolhem não mudar. E o fluxo de consciência, em vez de ser um recurso decorativo, é a prova de que a autora levou a sério a ideia de que a forma de escrever precisa corresponder à forma de pensar — mesmo quando isso significa abrir mão do enredo, da pontuação previsível e do conforto de uma história que termina onde deveria.


Veja também a resenha de A Paixão Segundo G.H., romance-síntese da técnica da epifania, e as crônicas de Clarice no Jornal do Brasil. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.

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