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A Paixão Segundo G.H.: Resenha da Obra-Prima de Clarice Lispector

A barata, o êxtase e o nada: o romance mais perturbador e filosófico de Clarice Lispector

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A Paixão Segundo G.H.: Resenha da Obra-Prima de Clarice Lispector
A Paixão Segundo G.H.: resenha da obra-prima de Clarice Lispector

Em 1964, Clarice Lispector publicou o livro que a crítica literária brasileira demorou décadas para entender completamente — e que ainda hoje resiste à interpretação final. A Paixão Segundo G.H. é uma mulher de classe média que mata uma barata e, no processo de limpar o quarto da empregada que acabou de ser demitida, tem uma experiência mística que dissolve sua identidade. É uma sinopse que parece ridícula na primeira vez que você lê. É o romance mais importante da literatura brasileira do século XX.

A Premissa

G.H. — uma escultora bem-sucedida do Rio de Janeiro, cujo nome nunca é revelado além das iniciais — acorda numa manhã e decide limpar o quarto de Janair, sua empregada que acaba de se demitir. O quarto está no fundo do apartamento, num andar alto, com uma janela que dá para o horizonte e uma reentrância na parede onde há uma barata.

G.H. fecha a porta do guarda-roupa sobre a barata para matá-la. Mas a barata não morre imediatamente. E o que acontece nas páginas seguintes — o que G.H. pensa, sente, faz — é uma meditação de 200 páginas sobre existência, identidade, nojo, transcendência e o que significa ser humano.

Por Que É Tão Importante

Nenhuma ficção brasileira, antes ou depois, foi tão longe na investigação da consciência humana. Clarice não está escrevendo sobre uma experiência religiosa no sentido convencional — G.H. não tem fé, não é mística. O que ela experiencia é algo anterior à religião: um contato com o que existe antes da linguagem, antes da identidade, antes da narrativa que cada pessoa constrói sobre si mesma.

O livro começa com um fragmento de frase — “—————e então” — e mantém G.H. falando para um interlocutor imaginário que ela precisa que segure sua mão enquanto conta o que aconteceu. A estrutura performativa do livro cria a sensação de que a narrativa está sendo construída no momento em que você lê.

G.H. Comer a Barata

O ato central — G.H. comendo a massa branca que sai do corpo da barata — é uma das cenas mais comentadas da literatura brasileira. Não é um ato de loucura nem de crueldade. É um ato de comunhão — a tentativa de G.H. de tocar o que há de mais primitivo na existência, de ir além do nojo que define os limites do humano. É repulsivo. É comovente. É literalmente inacreditável e completamente inevitável dentro da lógica do livro.

Como Ler A Paixão Segundo G.H.

Não é um livro para se começar em Clarice. A experiência é incomparavelmente mais rica para quem já leu A Hora da Estrela ou os contos de Laços de Família e já tem intimidade com o estilo. Mas quando você chega nele preparado, A Paixão Segundo G.H. é uma das experiências de leitura mais completas da literatura em língua portuguesa.

Ficha do Livro

TítuloA Paixão Segundo G.H.
AutoraClarice Lispector
Publicação1964
Editora atualRocco
GêneroRomance filosófico / Ficção literária

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