
G.H. não tem nome. Tem iniciais — G.H. — que aparecem gravadas nas malas de couro que ficam no quarto de Janair, a empregada que acabou de se demitir. Ela é escultora, mora num apartamento no último andar de um edifício do Rio de Janeiro, tem uma vida organizada e confortável. E em uma manhã, ao fechar uma porta de guarda-roupa sobre uma barata, ela começa a se desfazer.
Quem é G.H.
Antes do livro começar, antes da manhã em que tudo muda; G.H. é descrita como uma mulher que funciona bem. Tem uma profissão criativa, um apartamento próprio, relações sociais adequadas. Ela é, em termos sociais, bem-sucedida e adaptada. Mas quando ela vai ao quarto de Janair e encontra um desenho na parede. Um homem, uma mulher e um cachorro, traçados com cal pelo dedo da empregada, algo começa a se mover.
O desenho de Janair
O desenho é um dos elementos mais discutidos de A Paixão Segundo G.H. Janair — que nunca aparece no livro, que já saiu antes de G.H. chegar ao quarto — deixou na parede a única representação visual do romance. E G.H. percebe, olhando para o desenho, que Janair a viu: a viu com o olhar de alguém que está de fora, que observa sem as categorias que G.H. usa para se ver.

A relação com a Barata
A barata que G.H. encontra na reentrância da parede é o elemento mais perturbador do livro. Clarice escolheu o animal mais associado ao nojo humano, ao que é excluído da ideia de natureza bela e significativa. A barata existe antes da linguagem que a categoriza como repulsiva. É isso que G.H. percebe: que há uma realidade antes das categorias que nós (os humanos, a classe média, os adultos civilizados) criamos para nos proteger.
O ato de comer a massa da barata, o ato central, o mais comentado do livro, não é um ato de loucura. É a tentativa de G.H. de tocar essa realidade anterior à linguagem. De comungar com o que existe antes do nojo, antes da distinção entre humano e não-humano.

O que G.H. representa
G.H. é, na literatura brasileira, um dos personagens mais radicais já criados: uma pessoa cujo projeto narrativo, a história que contava sobre si mesma, se dissolve completamente durante um dia num quarto. E que, ao final desse processo, não sabe ao certo quem é, mas sabe que o que era antes estava incompleto de uma forma que ela não conseguia ver enquanto estava dentro.
Veja a resenha completa de A Paixão Segundo G.H. e o guia de Clarice Lispector. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.
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