
Todo sábado, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973, os leitores do Jornal do Brasil abriam o caderno e encontravam um texto curto assinado por Clarice Lispector. Não era resenha, não era entrevista, não era uma coluna de opinião no sentido tradicional. Num sábado ela podia escrever sobre a superprodução de café no Brasil. No outro, sobre um gafanhoto pousado na varanda de casa. Depois, sobre a filosofia de vida de uma empregada doméstica, ou sobre o medo da morte. Tudo cabia ali, com a mesma naturalidade de quem está apenas conversando. Foram mais de 460 desses textos ao longo de seis anos — e é esse material, reunido postumamente no livro “A Descoberta do Mundo”, que mostra uma Clarice bem diferente da que os romances herméticos consagraram.
Uma escritora que não queria ser cronista
O convite partiu do jornalista Alberto Dines, então à frente do Jornal do Brasil, um dos diários mais influentes do país naquele momento. Clarice já era autora respeitada — “Perto do Coração Selvagem” tinha saído havia mais de duas décadas, “A Paixão Segundo G.H.” havia poucos anos — mas encarou a proposta de escrever toda semana com desconfiança.
A relutância aparece nos próprios textos iniciais da coluna, em que ela hesita sobre que papel estava assumindo ali, sem se sentir exatamente uma colunista no sentido profissional do termo. A diferença que ela via entre os dois ofícios era de escala e de intimidade: os romances, dizia, eram escritos para poucos; a crônica semanal era uma escrita mais leve, feita para muitos, sob prazo, sob a obrigação de entregar algo toda semana independentemente de inspiração.
Essa tensão nunca desapareceu de todo. Mas ao longo dos anos a coluna deixou de ser um compromisso incômodo e virou espaço de afeto com o leitor — o tipo de retorno imediato que um romance hermético dificilmente proporciona a quem escreve.
Do que ela falava, afinal
A variedade temática é talvez o traço mais surpreendente de “A Descoberta do Mundo” para quem só conhece a Clarice dos romances. Há memórias de infância em Recife. Há relatos de encontros e festas, perfis de escritores e artistas, pequenas epifanias tiradas de cenas domésticas banais. Há reflexões sobre o próprio ofício de escrever, sobre maternidade, sobre amor, sobre educação, sobre tecnologia — temas que hoje soariam perfeitamente em casa numa newsletter de opinião ou num perfil de rede social movido a observações curtas.
Ela também escrevia sobre pessoas simples — empregadas domésticas, mulheres anônimas do cotidiano carioca — transformando existências normalmente invisíveis ao jornalismo em pequenas narrativas luminosas. O humor aparece com frequência, da ironia leve ao humor mais ácido, algo raro nos livros de ficção, onde o tom predominante é grave e introspectivo.
Não há um fio condutor único amarrando as 234 colunas que compõem o material. É prosa de ocasião, escrita sob o impacto de quem, segundo a descrição do próprio material reunido, observa o mundo como se o descobrisse pela primeira vez a cada semana — daí o título do livro.
Um registro completamente diferente dos romances
Quem chega a “A Descoberta do Mundo” depois de ler “Água Viva” ou “A Paixão Segundo G.H.” costuma se surpreender com a acessibilidade do texto. A prosa fragmentada, os períodos que se dobram sobre si mesmos, a exploração quase mística da linguagem que marca os romances dão lugar a frases mais curtas, a um tom coloquial, a uma primeira pessoa que fala diretamente com quem está do outro lado da página — porque, de fato, estava.
Isso não significa simplicidade. A crônica de Clarice mantém a mesma capacidade de transformar um detalhe banal em pergunta existencial; ela só faz isso em espaço menor e com prazo de entrega. O crítico que se debruça sobre esse material costuma chamar o resultado de uma espécie de “crônica metafísica” — o gênero leve carregado do peso filosófico que também sustenta a ficção, só que compactado em uma coluna de jornal, para ser lido entre um anúncio e outro, num sábado qualquer.
É essa fricção entre forma jornalística e ambição literária que torna o material interessante hoje: Clarice não abaixou o nível do que escrevia para caber no jornal, mas também não tentou empurrar o romance experimental para dentro da coluna. Ela encontrou um terceiro registro, que não é nem uma coisa nem outra.
Da coluna semanal ao livro
Clarice morreu em 1977, antes de ver o material da coluna organizado em livro. “A Descoberta do Mundo” saiu pela Editora Nova Fronteira em 1984, reunindo cronologicamente os textos publicados no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, numa edição organizada por Paulo Gurgel Valente, filho da autora.
Décadas depois, o material voltou a ser revisitado: uma edição ampliada, “Todas as Crônicas”, organizada pelo pesquisador Pedro Karp Vasquez, acrescentou dezenas de textos que não tinham entrado na seleção original de 1984, ampliando ainda mais o panorama do que Clarice produziu naqueles seis anos de coluna semanal.
Por que essa faceta interessa a quem faz jornalismo cultural hoje
Há algo instrutivo, para quem escreve sobre cultura na imprensa atual, em ver uma das prosadoras mais radicais da língua portuguesa aceitando as regras banais do jornalismo semanal: prazo fixo, espaço limitado, obrigação de produzir mesmo sem vontade, leitor que não pediu densidade filosófica mas às vezes recebia. Clarice não tratou isso como rebaixamento. Tratou como outro tipo de trabalho, com outras exigências, e produziu ali um corpo de texto que hoje se lê com a mesma atenção dedicada aos romances.
Boa parte das crônicas de “A Descoberta do Mundo” teria vida fácil num formato contemporâneo — um parágrafo curto, uma observação afiada sobre um detalhe do dia, o tipo de texto que hoje circularia isolado, fora de contexto, como um trecho compartilhado. É um lembrete de que o formato breve e o compromisso com prazo não são obstáculo à qualidade: nas mãos certas, são apenas outra forma de disciplina.
Ler essas crônicas ao lado dos romances também reorganiza a própria imagem pública de Clarice Lispector. A autora recorrentemente descrita como enigmática, hermética, quase inacessível, foi durante seis anos uma presença semanal e regular na vida de quem lia jornal no Rio de Janeiro — alguém que falava sobre café, sobre gafanhotos, sobre o medo de escrever, com a mesma voz que depois seria estudada em cursos de literatura. As duas coisas sempre foram a mesma escritora. “A Descoberta do Mundo” só torna isso mais difícil de ignorar.
Veja também a lista completa de livros de Clarice Lispector e como a crítica feminista lê sua obra. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.
Leia também:
Todos os Livros de Clarice Lispector: Lista Completa com Romances, Contos e Crônicas
A Herança Judaica de Clarice Lispector: Da Ucrânia ao Misticismo em Sua Prosa
Clarice Lispector Era Feminista? O Feminino em Sua Obra e a Resistência da Autora aos Rótulos
Epifania e Fluxo de Consciência: a Técnica Por Trás da Escrita de Clarice Lispector
Envie para
um amigo
Seja um apoiador
Ao se tornar um apoiador, você passa a receber conteúdos exclusivos e participa de sorteios e promoções especiais para apoiadores.