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A Herança Judaica de Clarice Lispector: Da Ucrânia ao Misticismo em Sua Prosa

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A Herança Judaica de Clarice Lispector: Da Ucrânia ao Misticismo em Sua Prosa
Da fuga da Ucrânia ao misticismo que atravessa sua prosa.

Clarice Lispector nasceu Chaya Pinkhasivna Lispector, em 10 de dezembro de 1920, numa vila chamada Chechelnik, na região da Podólia, hoje território ucraniano. A família era judaica, pobre, e vivia sob os efeitos da Guerra Civil Russa, quando ondas de pogroms — ataques violentos organizados contra comunidades judaicas — se espalhavam pela região. Foi para escapar dessa violência que os pais de Clarice, Pinkhas e Mania Lispector, deixaram a Ucrânia no inverno de 1921, ainda com as três filhas pequenas. Menos de um ano depois, a família desembarcava no Brasil. Essa origem — quase sempre resumida em uma linha de biografia — é o ponto de partida real para entender por que tantos pesquisadores, décadas depois, passaram a reler a prosa de Clarice Lispector à procura de ecos do misticismo judaico.

Da Ucrânia ao Recife: a fuga que definiu uma infância

A rota da família Lispector até o Brasil passou pela Romênia, de onde embarcaram rumo à América do Sul saindo do porto de Hamburgo. Chegaram em território brasileiro no início de 1922, quando Clarice tinha pouco mais de um ano de idade — cedo demais para guardar qualquer memória da Ucrânia, mas não cedo o suficiente para escapar de carregar, pelo resto da vida, a marca de ser filha de refugiados.

No Brasil, a família se instalou primeiro em Maceió, em Alagoas, e três anos depois se mudou para Recife, onde fixou residência no bairro da Boa Vista. Foi ali, em Pernambuco, que Clarice Lispector passou a infância e começou a escrever suas primeiras histórias — e foi ali também que a mãe morreu, em setembro de 1930, quando a escritora tinha nove anos. A família só se mudaria para o Rio de Janeiro alguns anos mais tarde, já na adolescência de Clarice. Esses dados — o nascimento na Ucrânia, a fuga dos pogroms, a chegada ainda bebê, a infância em Recife — são fatos biográficos bem documentados, sem margem para dúvida. O que vem a seguir já é outra coisa: é interpretação.

Por que pesquisadores foram procurar judaísmo dentro dos livros

Clarice Lispector nunca fez da própria origem judaica um tema explícito em entrevistas ou declarações públicas, e sua obra também não contém rituais, sinagogas ou personagens que se apresentem como judeus praticantes. Por isso, durante décadas, a crítica literária tratou sua ficção como algo deslocado de qualquer tradição religiosa específica — universal, filosófica, quase sem endereço. Essa leitura começou a mudar quando pesquisadores de literatura e de estudos judaicos passaram a examinar a estrutura da prosa dela, não o conteúdo explícito: a forma como a linguagem tenta e falha em nomear certas experiências, a insistência em um “isso” ou uma “coisa” que escapa às palavras, a proximidade com procedimentos de leitura bíblica.

A pesquisadora Berta Waldman, da Universidade de São Paulo, resume bem o cuidado que esse tipo de leitura exige. Em artigo publicado no Arquivo Maaravi — revista de estudos judaicos da UFMG —, Waldman argumenta que a Bíblia funciona como base de sua obra, especialmente em relação a noções de lei e transgressão, mas que esse substrato judaico aparece de forma indireta, entrelaçado a elementos cristãos e à religiosidade popular brasileira, num sincretismo que reflete o próprio país onde Clarice cresceu. Ou seja: para essa linha de pesquisa, não se trata de encontrar doutrina judaica escondida nos livros, mas de reconhecer uma sensibilidade formada por uma tradição — misturada, deslocada, reinventada em português.

Cabala, o “não-dizível” e “A Paixão Segundo G.H.”

É em “A Paixão Segundo G.H.” (1964) que essa leitura ganha mais força entre os pesquisadores. No romance, a protagonista tem uma crise existencial ao esmagar uma barata dentro de um guarda-roupa e, diante da criatura, atravessa uma experiência que a arrasta para fora da própria humanidade — um estado em que a linguagem comum deixa de dar conta do que ela sente. O pesquisador Estevan de Negreiros Ketzer analisou o livro à luz de conceitos da cabala, a tradição de interpretação mística de textos sagrados que se desenvolveu dentro do judaísmo ao longo de séculos. Vale explicar o que esses termos significam antes de aplicá-los ao texto: no pensamento cabalístico, “tzimtzum” é a ideia de que, para que o mundo pudesse existir, o próprio Deus precisou se retrair, abrir um vazio; “shevirat ha-kelim”, a “quebra dos vasos”, descreve um momento de fragmentação original do universo, que deixaria cacos de luz divina espalhados dentro da matéria — e que caberia ao ser humano reunir de novo, um processo chamado “tikkun”, ou reparação.

Ketzer lê a jornada de G.H. como uma versão literária desse movimento: a personagem se esvazia de tudo que era humano e categorizável para, no fundo desse vazio, tocar algo parecido com uma reparação — não teológica, mas existencial. Já a pesquisadora Tânia Dias Jordão, em dissertação defendida na UFMG, propõe que a Bíblia funciona como texto de base do romance, e descreve a experiência de G.H. como uma espécie de inversão da paixão de Cristo: enquanto Jesus, na tradição cristã, assume a natureza humana para redimir os homens, G.H. faz o caminho contrário — perde a própria humanidade para alcançar alguma forma de verdade. Jordão chama atenção também para como Clarice usa a repetição de palavras até que elas percam sentido e virem, nas palavras da própria autora citadas no estudo, “coisa oca” — um recurso que se aproxima do que a mística, judaica ou não, sempre tentou fazer: dizer o indizível sabendo que a linguagem vai falhar nessa tarefa.

Os ecos em “Água Viva” e o judaísmo como forma, não como crença

A mesma chave de leitura foi estendida a “Água Viva” (1973), livro sem enredo tradicional, construído como um fluxo contínuo de anotações de uma narradora que tenta capturar o instante presente antes que ele se esvaia. A pesquisadora Katya Queiroz Alencar, também em artigo publicado no Arquivo Maaravi da UFMG, analisou como a obra constrói o que ela chama de “sacranimalidade” — um inventário de bichos e imagens do não-humano que a narradora usa para se aproximar de uma divindade primitiva, anterior a qualquer categoria. Alencar situa essa operação dentro de uma tradição hebraica de bestiários, textos que usam animais como caminho para pensar o sagrado e a alteridade, e não apenas como uma característica isolada e pessoal de Clarice.

Outra frente de pesquisa aproxima Clarice Lispector do filósofo austríaco Martin Buber, também de origem judaica do Leste Europeu. Um estudo das pesquisadoras Beatriz Serrado Gonçalves e Leila Borges Dias Santos, da Universidade Federal de Goiás, sustenta que os dois compartilham uma visão de mundo marcada pelo hassidismo — movimento de renovação mística surgido dentro do judaísmo do Leste Europeu, justamente na região de onde a família de Clarice veio, com forte ênfase na possibilidade de encontrar o sagrado dentro da vida cotidiana, e não apenas em rituais formais. Segundo as autoras, tanto em contos como “Amor” e “Uma Esperança” quanto em “A Paixão Segundo G.H.”, Clarice constrói o que chamam de atmosfera epifânica: instantes banais — esmagar um inseto, olhar demais para um objeto, sentir fome — que se abrem repentinamente para uma dimensão maior.

O limite entre biografia e interpretação

É importante separar bem essas duas camadas. Que Clarice Lispector nasceu numa família judia ucraniana que fugiu de pogroms é fato histórico, documentado e sem controvérsia. Que sua prosa contém estruturas, imagens e movimentos de linguagem que pesquisadores associam à mística judaica é outra coisa: uma leitura crítica, construída décadas depois de seus livros publicados, por acadêmicos que comparam trechos específicos a conceitos de tradições que Clarice talvez nunca tenha estudado formalmente. Ela própria evitava explicar os próprios textos e resistia a rótulos — inclusive religiosos. Não existe registro de que praticasse rituais judaicos ou se identificasse publicamente como uma escritora “judaica” em algum sentido confessional.

O que existe, e o que sustenta esse campo inteiro de pesquisa universitária — em revistas como o Arquivo Maaravi da UFMG e a Letrônica da PUCRS —, é uma coincidência difícil de ignorar: uma escritora nascida numa vila judaica destruída pela violência, criada num Brasil de sincretismo religioso, que passou a vida inteira escrevendo sobre a dificuldade de nomear o que mais importa. Se isso é herança, memória de família ou apenas um jeito de pensar que ela desenvolveu sozinha, ninguém pode afirmar com certeza. Mas o gesto de ir buscar essas respostas dentro do texto, palavra por palavra, é hoje uma parte consolidada de como a obra de Clarice Lispector é lida dentro da universidade brasileira.


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