
Clarice Lispector publicou cinco livros de contos em vida, mas apenas um costuma aparecer nas listas de leitura obrigatória: Laços de Família, de 1960. Os outros quatro seguem à sombra desse volume, apesar de reunirem desde um texto escrito quando a autora tinha catorze anos até uma encomenda editorial que ela aceitou sob protesto e escreveu em um único fim de semana, três anos antes de morrer. Conhecer só Laços de Família é conhecer metade da Clarice contista. As outras quatro coletâneas — A Legião Estrangeira, Felicidade Clandestina, A Via Crucis do Corpo e Onde Estivestes de Noite — mostram uma autora que também brincou com o formato, escreveu sobre o próprio ofício e, no fim da carreira, topou um desafio que ninguém esperava dela.
Os quatro livros saíram ao longo de dez anos, entre 1964 e 1974, e por isso funcionam quase como um mapa da segunda metade da carreira de Clarice: começam com uma coletânea que ainda dialoga com o tom mais contido de Laços de Família e terminam em dois volumes, publicados no mesmo ano, que a levam para direções opostas — um explicitamente carnal, outro quase abstrato. Nenhum dos quatro é difícil de encontrar hoje; todos seguem em catálogo pela Rocco. O que falta não é disponibilidade, é reputação — e é isso que este panorama tenta corrigir.
A Legião Estrangeira (1964): contos e os bastidores da escrita
Lançado em setembro de 1964 pela Editora do Autor, A Legião Estrangeira reúne treze contos centrados em família, infância e solidão. Um deles, “Viagem a Petrópolis”, vem de um período muito anterior: Clarice o escreveu ainda adolescente, aos quatorze anos, e decidiu incluí-lo décadas depois no livro adulto — um raro registro da autora antes de se tornar a autora que conhecemos. Outro destaque é “Os Desastres de Sofia”, sobre a crueldade e a intensidade emocional de uma criança diante de um professor, um dos contos mais estudados da coletânea.
O que torna esse volume particular, porém, é a seção final. Em edições que preservam a estrutura original, os contos vêm seguidos por “Fundo de Gaveta”, um conjunto de textos curtos e crônicas em que Clarice comenta o próprio processo de escrever — hesitações, rascunhos, a relação incômoda com a própria obra. Não é ficção disfarçada de bastidor: é a autora saindo do modo narrativo para falar diretamente sobre o ofício, algo que ela raramente fazia com essa exposição. Para quem já leu Laços de Família e quer entender como Clarice pensava sobre escrever, essa seção vale tanto quanto os contos que a antecedem.
É também o único dos quatro livros aqui reunidos que mostra abertamente a costura entre gêneros — conto e crônica convivendo na mesma capa, sem aviso prévio ao leitor. Décadas depois, editoras voltariam a explorar essa mistura como marca registrada da autora; em 1964, era ainda uma novidade dentro da própria obra de Clarice, que até ali era conhecida sobretudo pelos romances densos como A Maçã no Escuro.
Felicidade Clandestina (1971): quando a memória de infância vira ficção
Publicado em 1971, Felicidade Clandestina reúne 25 contos que giram em torno de infância, adolescência e família — muitos deles ambientados em Recife, onde Clarice cresceu. O conto-título, que abre o livro, é o mais citado de toda a coletânea e um dos mais lidos em sala de aula no Brasil: a narradora deseja desesperadamente um exemplar de um livro de Monteiro Lobato, mas a filha da dona da biblioteca o retém por pura crueldade infantil, prometendo emprestá-lo “amanhã” repetidamente, até que a mãe da colega intervém. É um relato de base autobiográfica, e essa mistura entre memória pessoal e elaboração ficcional é o que costura o livro inteiro: Clarice não está reconstituindo fatos com precisão de biógrafa, está usando a própria infância como matéria-prima para investigar como uma criança sente — o desejo, a humilhação, a espera, a alegria escondida que dá nome ao volume.
É um livro mais acessível que boa parte da obra de Clarice, o que talvez explique por que circula tanto em antologias escolares e tão pouco como leitura de coletânea completa. Ler os 25 contos em sequência, e não apenas o texto que dá título ao livro, mostra uma autora atenta às pequenas humilhações e vitórias da vida doméstica — um contraponto necessário à Clarice mais hermética de romances como A Paixão Segundo G.H.
Essa acessibilidade tem um efeito colateral curioso: por circular tanto em sala de aula, “Felicidade Clandestina” corre o risco de virar apenas “aquele conto da prova de português”, separado do livro inteiro que o contém. Os outros 24 textos da coletânea merecem o mesmo tipo de atenção, ainda que raramente a recebam fora do círculo de leitores mais dedicados da autora.
A Via Crucis do Corpo (1974): a encomenda que ninguém esperava
Nenhuma coletânea de Clarice tem uma história de criação tão inusitada quanto esta. Em 1974, o editor Álvaro Pacheco telefonou para a autora com um pedido direto: ele precisava de histórias com “assunto perigoso”, que “realmente tivessem acontecido”. A ligação foi numa sexta-feira. Clarice começou a escrever no sábado e, na manhã de domingo, já tinha os três primeiros contos prontos. O restante do livro — ao todo, 14 textos ficcionais — foi composto na mesma velocidade incomum para ela, movida também pela necessidade financeira do momento.
O resultado, publicado pela Editora Artenova, é o volume mais explícito e desconcertante de toda a obra de Clarice: histórias que tratam de sexo, desejo e corpo sem os rodeios metafísicos característicos da autora. No prefácio, ela própria se antecipa ao estranhamento do leitor: “Fiquei chocada com a realidade. Se há indecências nas histórias a culpa não é minha.” É uma Clarice deliberadamente crua, quase grotesca em alguns momentos — um contraste completo com a introspecção contida de Laços de Família ou com a delicadeza de Felicidade Clandestina. Para quem só conhece a autora dos silêncios e das epifanias, A Via Crucis do Corpo é a prova de que ela também sabia — e, quando desafiada, quis — escrever sem filtro.
A rapidez da escrita não tornou o livro descartável. É justamente a urgência do processo — Clarice cumprindo um prazo quase impossível, sem tempo para as reescritas lentas e obsessivas que marcavam seus romances — que dá aos textos uma energia diferente de qualquer outra coisa que ela publicou. Não é o melhor ponto de partida para conhecer a autora, mas é leitura obrigatória para quem quer entender até onde ia sua disposição de experimentar quando confrontada com um limite externo, e não apenas com as próprias exigências internas.
Onde Estivestes de Noite (1974): o livro que resiste a rótulo
No mesmo ano de A Via Crucis do Corpo, Clarice publicou um segundo volume bem diferente: Onde Estivestes de Noite mistura contos, crônicas e textos híbridos que não se encaixam com facilidade em nenhuma das duas categorias. O título vem de um verso de Carlos Drummond de Andrade, e a noite funciona no livro como espaço simbólico — o território do delírio, da magia e do que escapa à razão diurna.
Os textos avançam por colagens de frases, fluxos de palavras soltas, fragmentos e instantâneos, em vez de seguir uma progressão narrativa convencional. Os temas recorrentes são a androginia, os limites da linguagem para dar conta da experiência e — de forma notável — o desejo na velhice, tratado sem o pudor que normalmente cerca o assunto na literatura da época. Há também humor judaico e autoironia, um traço menos comentado da escrita de Clarice, que aqui aparece com mais clareza do que em qualquer outro de seus livros de contos. É leitura mais exigente que as três coletâneas anteriores, mas também a que mais se aproxima da experimentação formal de seus últimos romances.
Publicar Onde Estivestes de Noite e A Via Crucis do Corpo no mesmo ano diz algo sobre o momento em que Clarice se encontrava: uma autora disposta a testar os dois extremos do que a linguagem podia fazer, o corpo exposto sem metáfora de um lado, a experiência quase indizível da noite do outro. Nenhum dos dois livros se parece com o que veio antes — e por isso mesmo eles funcionam melhor lidos depois, não antes, de Laços de Família.
Juntas, essas quatro coletâneas contam uma história que Laços de Família sozinho não conta: a de uma escritora que começou publicando um conto aos catorze anos, passou a vida revisando sua relação com a própria obra em textos de bastidor, aceitou no fim da carreira uma encomenda que a levou a território inédito e, no mesmo período, escreveu um livro quase impossível de classificar. Não são leituras de entrada — para isso, Laços de Família continua sendo a porta certa. Mas para quem já passou por essa porta e quer saber até onde Clarice contista foi capaz de ir, os quatro volumes seguintes são o caminho natural.
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