
A comparação entre Clarice Lispector e Virginia Woolf existe desde que Clarice publicou seu primeiro romance, em 1943. A crítica brasileira da época não sabia exatamente o que fazer com Perto do Coração Selvagem e buscou referências: Joyce, Woolf, Proust. A comparação com Woolf em particular ficou — e se repetiu ao longo de décadas. É uma comparação útil, mas tem limites que valem a pena entender.
Índice
O que as aproxima
O interior como território. Ambas escreveram ficção que se passa principalmente dentro da cabeça de seus personagens. A experiência exterior — o que acontece no mundo — importa menos do que o que acontece na consciência que observa.
Personagens femininas em primeiríssimo plano. Woolf escreveu sobre mulheres com uma atenção que a ficção dominada por homens raramente dedicava. Clarice fez o mesmo — e em um contexto cultural (Brasil dos anos 1940–70) ainda mais resistente a esse tipo de projeto.
A linguagem como forma de conhecimento. Para ambas, a escrita não é um veículo para transmitir uma história que existe independentemente das palavras. As palavras são a experiência — a forma como a frase é construída determina o que é possível pensar e sentir.

O que as separa
O projeto intelectual. Woolf era uma ensaísta e crítica literária brilhante — Um Teto Todo Seu é um documento político tanto quanto literário. Clarice era uma ficcionista quase exclusivamente: sua produção crítica e ensaística é pequena em comparação. Woolf tinha um programa explícito para a literatura de mulheres. Clarice resistia a qualquer categorização.
A classe social. Os personagens de Woolf são, em sua maioria, da classe média alta inglesa educada — mesmo quando a narrativa os critica. Clarice escreve sobre burguesias brasileiras, mas também sobre retirantes nordestinas (Macabéa) e sobre experiências que estão radicalmente fora da vida confortável. A distância de classe nos romances de Clarice é um elemento narrativo ativo.
O misticismo. Clarice tem uma dimensão de experiência quase religiosa — o contato com algo anterior à linguagem, com uma realidade que existe antes das categorias humanas — que não tem equivalente em Woolf. A Paixão Segundo G.H. é um livro sobre transcendência; nada em Woolf vai tão longe nessa direção.

Qual ler primeiro?
Se você gosta de Virginia Woolf e está chegando a Clarice: comece com Laços de Família e depois A Hora da Estrela. O fluxo de consciência vai ser familiar, mas o território vai ser muito diferente.
Se você gosta de Clarice e está chegando a Woolf: comece com Mrs. Dalloway ou Ao Farol. A elegância formal de Woolf vai parecer diferente depois da intensidade de Clarice — não menos boa, só diferente.
Veja o guia completo de Clarice Lispector. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.
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