
Numa carta escrita nos anos em que morava na Europa, Clarice Lispector reclamava do orçamento apertado com uma frase que resume o que sua correspondência faz por sua imagem pública: “Entre as qualidades do dinheiro, não está a elasticidade.” O tom é doméstico, irônico, quase de crônica — nada parecido com a prosa que investiga o abismo por trás das coisas. Essa Clarice, mais rente ao chão, é a que aparece em Todas as Cartas, volume organizado pela biógrafa Teresa Montero e publicado pela Rocco em 2020, no ano em que a escritora completaria cem anos.
O que reúne o livro
Todas as Cartas tem quase 860 páginas e reúne 284 cartas escritas por Clarice entre maio de 1940 e novembro de 1977, poucas semanas antes de sua morte. Cerca de cinquenta delas nunca haviam sido publicadas, localizadas em arquivos públicos e privados ao longo de anos de pesquisa. O prefácio e as 510 notas explicativas são de Teresa Montero, autora de biografias sobre a escritora; a pesquisa e a transcrição do material coube a Larissa Vaz, e o posfácio é assinado por Pedro Karp Vasquez.
A organização segue a ordem cronológica, década a década. Metade das cartas tem como destinatárias as irmãs de Clarice, Tania Kaufmann e Elisa Lispector; a outra metade se divide entre editores, tradutores e amigos escritores, entre eles João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Lêdo Ivo e Nélida Piñon. É esse duplo endereçamento — família de um lado, meio literário de outro — que dá ao livro sua textura particular: a mesma mulher que discute prazos de tradução com um editor é, na carta seguinte, a irmã que pede notícias de casa e reclama de aluguel.
As irmãs Tania e Elisa, o fio que segura tudo
Se há um eixo emocional no volume, ele passa pelas cartas trocadas com Tania e Elisa. É ali que a escrita de Clarice perde o verniz literário e vira conversa: notícias de família, saudades, comentários sobre dinheiro, roupa, saúde do filho, planos de viagem. Não é o registro de uma autora construindo uma obra diante do leitor — é o de uma mulher mantendo, à distância, o único vínculo cotidiano estável que lhe restava enquanto se mudava de país em país.
Boa parte dessas cartas às irmãs havia permanecido fora de circulação até a pesquisa reunida para este volume, o que torna esse bloco do livro o mais revelador para quem conhece Clarice apenas pelos romances e contos. A correspondência funciona como o que a crítica em torno do lançamento chamou de “heterobiografia”: um retrato da autora composto não por ela mesma diante da própria obra, mas pelo acúmulo de pequenos relatos endereçados a quem não precisava de explicações — porque já a conhecia antes de ela ser Clarice Lispector, a escritora.
Nápoles, a Suíça, os Estados Unidos: o cotidiano da esposa de diplomata
Uma parte substancial do livro cobre os quase vinte anos em que Clarice viveu no exterior, período em que acompanhou o marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, em postos na Europa e nos Estados Unidos. As cartas dessa fase esclarecem o roteiro real dessa vida errante — a passagem pela Itália, a Suíça, um período na Inglaterra e, depois, os anos em Washington — e mostram o quanto essa experiência era, ao mesmo tempo, matéria de sofrimento e de trabalho silencioso.
Um episódio que a correspondência ajuda a documentar é a passagem de Clarice por Nápoles, na Itália, na década de 1940: ela fez trabalho voluntário em hospitais da cidade, visitando e amparando soldados feridos na guerra. É um dado que dificilmente apareceria assim, de relance, em qualquer biografia construída só a partir da ficção — e que aparece nas cartas porque ela mesma sentiu necessidade de contar às irmãs o que estava fazendo com os próprios dias.
O resto do cotidiano diplomático também está lá: a vida social obrigatória de esposa de embaixada, o tédio de cidades onde não conhecia ninguém além do círculo do marido, a dificuldade de escrever em meio a jantares e recepções, o desejo recorrente de voltar ao Brasil. Nada disso é enunciado com grandiloquência. É reclamação de carta — o tipo de queixa que qualquer pessoa faz para uma irmã, só que assinada por uma das prosadoras mais estudadas da língua portuguesa.
Humor onde a crítica só via hermetismo
A fama de autora hermética, quase inacessível, acompanhou Clarice Lispector desde os primeiros livros — construída em parte pela dificuldade real de sua prosa, em parte por retratos públicos que a apresentavam como enigmática e distante. As cartas colidem de frente com essa imagem. Antes de ser romancista consagrada, Clarice trabalhou como jornalista, e o texto de jornal deixou marca: nas cartas ela é direta, engraçada, capaz de fazer graça da própria vida financeira ou das inconveniências de um apartamento novo com a mesma leveza de uma crônica de jornal.
Amigas como Marina Colasanti e Nélida Piñon receberam cartas cheias do que resenhas do livro descreveram como confidências e um humor discreto, quase britânico. É um registro que os romances praticamente não permitem — porque a ficção de Clarice não trabalha para ser engraçada ou confessional, trabalha para outra coisa. A carta, gênero que pressupõe um destinatário específico e uma resposta possível, abre espaço para o que a literatura dela deliberadamente fecha.
A rotina de escrever, vista de dentro
Outro fio importante do livro são as cartas trocadas com editores, tradutores e colegas de ofício, que documentam algo raramente visível na obra publicada: o processo de trabalho. Ali aparecem as dificuldades para publicar no Brasil ao longo dos anos 1960, as negociações e atrasos de tradução para outros idiomas, as dúvidas sobre motivações de livros específicos enquanto ainda estavam sendo escritos. É a autora em tempo real, sem o acabamento que o texto final impõe — pedindo prazo, questionando uma editora, comentando com um amigo escritor o que não estava dando certo.
Esse material também situa Clarice num contexto histórico concreto: o de uma escritora mulher tentando se firmar profissionalmente numa época em que a Academia Brasileira de Letras ainda não admitia mulheres em seus quadros. As cartas não fazem disso um manifesto — Clarice era econômica em opiniões públicas — mas o simples relato das dificuldades práticas de publicação já diz o que faltava dizer de outro jeito.
Por que essas cartas mudam a leitura de Clarice
Todas as Cartas não substitui a ficção nem tenta explicá-la — Teresa Montero é clara ao situar o volume como material biográfico, não como chave de leitura para os romances. O que o livro faz é outra coisa, talvez mais simples: mostrar que, por trás da prosa que investigou o silêncio, o vazio e a epifania, havia uma mulher pagando aluguel em moeda estrangeira, sentindo falta das irmãs, reclamando de dinheiro e rindo da própria vida. A imagem hermética de Clarice Lispector nunca foi inteiramente falsa. As cartas apenas mostram que ela era só metade da história.
Veja também a biografia completa de Clarice Lispector e a última entrevista que ela concedeu. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.
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