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Água Viva: Resenha do romance-limite de Clarice Lispector

O texto que não é romance: Água Viva, a prosa pura e o presente contínuo de Clarice

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Água Viva: Resenha do romance-limite de Clarice Lispector
Água Viva — Clarice Lispector (Cansei de Ser Pop)

Água Viva é o livro de Clarice Lispector que mais resiste à sinopse. Não tem personagens no sentido convencional. Não tem trama que avance de um ponto a outro. É um monólogo — uma pintora escrevendo para um ex-amante — em que o tempo presente é a única forma verbal possível. “Escrevo-te como exercício antes de morrer.” É a segunda frase do livro. A primeira é: “É com uma alegria tão profunda.”

Publicado em 1973, quatro anos antes de A Hora da Estrela e da morte de Clarice, Água Viva é o ponto mais radical de toda sua obra e o mais próximo do que a literatura pode fazer quando decide não mais fingir que é outra coisa.

O que é

Uma pintora escreve cartas (ou o que parece ser cartas) para um homem com quem teve um relacionamento. Mas o conteúdo dessas “cartas” não é sobre o relacionamento é sobre o ato de escrever, sobre a percepção do instante, sobre a impossibilidade de capturar o presente em palavras sem que o presente já tenha passado.

Clarice estava, neste livro, tentando fazer com palavras o que ela via a pintura fazer com cores e formas: capturar não um objeto mas a sensação de um objeto, não um momento mas a textura de estar em um momento. O resultado é um texto que opera no limite da linguagem — e às vezes do outro lado desse limite.

Para quem é

Água Viva é para leitores que já têm familiaridade com Clarice preferencialmente depois de A Paixão Segundo G.H., que também opera na fronteira da linguagem mas ainda tem uma estrutura narrativa mais identificável. Para novos leitores de Clarice, este não é o ponto de entrada.

É também um livro extraordinário para quem tem interesse em arte visual, a voz da narradora é a de uma pintora, e as reflexões sobre cor, forma e tempo têm uma precisão que vai ressoar para quem pensa sobre os limites entre linguagens artísticas.

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Algumas passagens

“Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o meu orbe é o de uma alegria funda.”

“Minha desordem interna é tão rica que mal posso suportar.”

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.”

Ficha do livro

TítuloÁgua Viva
AutoraClarice Lispector
Publicação1973
Editora atualRocco

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