
Um maço de páginas datilografadas fora de ordem, algumas escritas à mão nas margens, sem numeração clara de onde cada fragmento deveria entrar. Foi isso que restou quando Clarice Lispector morreu, em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos. Entre esse material estava o esboço de Um Sopro de Vida (Pulsações), publicado no ano seguinte, em 1978 — o único romance de Clarice que ela nunca chegou a ver impresso.
Não é uma obra menor por isso, nem um apêndice de curiosidade biográfica. É o contrário: talvez nenhum outro livro da autora exponha de forma tão direta o que significava, para ela, o próprio ato de escrever. E poucos carregam esse peso de forma tão literal — foi o último texto em que trabalhou, revisado e reescrito enquanto a doença avançava.
Um livro fechado por outras mãos
Clarice começou a escrever Um Sopro de Vida por volta de 1974, em paralelo com o que seria seu penúltimo romance, A Hora da Estrela. Os dois livros cresceram quase juntos, ao longo de três anos marcados por uma saúde cada vez mais frágil — em 1976 ela já enfrentava o câncer que a mataria. Enquanto A Hora da Estrela ganhou forma fechada e foi publicado ainda em vida, em 1977, Um Sopro de Vida ficou para trás: uma pilha de fragmentos que a autora seguia revisando, sem nunca declarar o texto pronto.
Quem deu ordem a esse material foi Olga Borelli, amiga próxima e auxiliar de Clarice nos últimos anos de vida, que ajudava a organizar seus papéis e, segundo relatos de quem conviveu com as duas, também discutia com ela os rumos do livro enquanto ainda era possível. Depois da morte da autora, coube a Borelli reunir as páginas soltas, decidir uma sequência possível para os fragmentos e preparar o texto para a publicação pela Editora Nova Fronteira, em 1978. Não existe uma versão final assinada por Clarice — existe a versão que se tornou possível a partir do que ela deixou.
Esse processo importa porque muda a maneira como se lê o livro. Não se trata de um romance com começo, meio e fim traçados por uma autora que sabia exatamente onde queria chegar, mas de um conjunto de anotações, reflexões e cenas que giram em torno de um mesmo núcleo, sem a obrigação de fechar um enredo. A fragmentação de Um Sopro de Vida não é um efeito de estilo aplicado por Clarice — é, em parte, uma condição material do próprio livro, resultado de uma escrita interrompida pela morte antes de chegar à forma que talvez tomasse.
O Autor e a personagem que ele cria para não estar sozinho
Um Sopro de Vida não tem enredo no sentido tradicional. O livro se organiza como uma alternância de vozes: de um lado, um narrador identificado apenas como “o Autor”; do outro, Ângela Pralini, a personagem que esse Autor inventa para preencher o vazio da própria existência. Os dois falam quase o tempo todo — em anotações curtas, às vezes em diálogo direto, às vezes em monólogos que parecem responder um ao outro sem se tocar de fato.
O Autor descreve o processo de criar Ângela como um ato de necessidade, não de escolha. Ele precisa dela para ter com quem falar, para ter um espelho que devolva alguma imagem de si mesmo. Ângela, por sua vez, também escreve — é uma personagem que é, ela própria, escritora, o que embaralha ainda mais a fronteira entre quem cria e quem é criado. Em certos trechos, ela parece escapar do controle do Autor e ganhar autonomia própria; em outros, é claramente um instrumento dele, uma superfície onde ele projeta medos e desejos que não consegue nomear de outra forma.
Essa relação entre criador e criatura é o verdadeiro assunto do livro. Clarice usa o par Autor/Ângela para investigar o que significa dar vida a algo por meio da linguagem — e, por extensão, o que significa estar vivo. Há neles uma reflexão constante sobre escrever como forma de sobrevivência, resumida numa frase que se tornou uma das mais citadas da autora: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.” Não é uma imagem gratuita. Escrito nos últimos meses de uma vida que se sabia perto do fim, o livro transforma a criação literária em ato de permanência — a única forma de continuar existindo depois que o corpo já não puder.
Um estilo que abandona a narrativa pela pulsação
O subtítulo do livro, “Pulsações”, explica melhor sua estrutura do que qualquer resumo de enredo. Um Sopro de Vida não avança em capítulos que constroem uma progressão — avança em pulsos, pequenos blocos de texto que se sucedem sem transição explicada, alternando entre reflexão filosófica, observação do cotidiano, lampejos quase líricos sobre música e silêncio, e comentários do Autor sobre o próprio ato de escrever o livro que o leitor tem nas mãos.
É a prosa mais radicalmente fragmentária de toda a obra de Clarice, que já era conhecida por resistir à narrativa convencional desde Perto do Coração Selvagem. Aqui, porém, a fragmentação deixa de ser recurso e passa a ser praticamente a única forma disponível. Não há cena que se desenvolva por páginas, não há progressão psicológica de personagem no sentido clássico. Há, em vez disso, uma sucessão de instantes de consciência — do Autor, de Ângela, e por trás dos dois, de Clarice — que se acumulam até formar algo parecido com um retrato, embora nunca um retrato completo.
Essa forma é o que faz o livro funcionar como testamento literário, no sentido mais exato da palavra: não porque anuncie despedidas de maneira explícita, mas porque sua própria estrutura incompleta registra o processo de pensamento de uma escritora até onde ele foi possível ir. Ler Um Sopro de Vida é acompanhar Clarice pensando em tempo real sobre os temas que atravessaram toda a sua obra — a linguagem que nunca dá conta da coisa em si, a fronteira entre viver e escrever sobre viver, o silêncio como limite da palavra — só que agora sem o filtro de uma arquitetura narrativa que organize essas ideias em história.
O que fica depois da última página
Não é um livro fácil de recomendar como porta de entrada. Quem nunca leu Clarice Lispector provavelmente vai se perder na ausência de enredo e na repetição de temas que Um Sopro de Vida pratica quase como um exercício. Mas para quem já percorreu o resto da obra — A Paixão Segundo G.H., Água Viva, a própria A Hora da Estrela — este é o livro que fecha o circuito, o ponto em que as perguntas que ela vinha fazendo há décadas aparecem sem disfarce de enredo, quase nuas.
Há algo de justo no fato de que o último livro de Clarice Lispector não tenha sido fechado por ela, mas por uma amiga que reuniu o que pôde de um material que a morte interrompeu. Um Sopro de Vida chega ao leitor exatamente como uma vida chega ao seu fim: sem conclusão perfeita, sem o último parágrafo que resolveria tudo, apenas com a pulsação registrada até onde foi possível registrar. Isso não é uma falha do livro. É, talvez, a coisa mais honesta que ele tinha para dizer.
Veja também a resenha de A Hora da Estrela, publicado no mesmo período, e a última entrevista de Clarice Lispector. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.
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