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A Cidade Sitiada: O Romance Mais Esquecido de Clarice Lispector

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A Cidade Sitiada: O Romance Mais Esquecido de Clarice Lispector
O romance mais esquecido da autora ganha uma segunda chance de leitura.

“A Hora da Estrela” ganhou filme, virou peça de teatro e é citada em vestibular. “A Paixão Segundo G.H.” é estudada em cursos de literatura no mundo inteiro, com uma barata no centro de uma das cenas mais comentadas da prosa brasileira. “A Cidade Sitiada”, o terceiro romance de Clarice Lispector, não tem nada disso. Publicado em 1949, é hoje o livro que menos aparece em listas de “por onde começar” e o que menos se discute entre os sete romances da autora — um contraste que diz tanto sobre o livro quanto sobre o modo como se lê Clarice.

Um romance escrito à distância

Clarice tinha 29 anos quando “A Cidade Sitiada” saiu pela editora A Noite. Era seu terceiro romance, depois de “Perto do Coração Selvagem” (1943), que a lançara como revelação da literatura brasileira aos 23 anos, e de “O Lustre” (1946). Diferente dos dois anteriores, este foi escrito fora do Brasil: Clarice vivia então em Berna, na Suíça, onde acompanhava o marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, em um posto que ela descreveria mais tarde como um dos períodos mais entediantes de sua vida.

O isolamento suíço não aparece no livro como cenário — a cidade do romance é brasileira —, mas parece ter deixado marca no tom. Em cartas da época, Clarice fala em ondas de apatia. É difícil não ler “A Cidade Sitiada” à luz disso: um livro sobre estar de fora, escrito por alguém que também estava de fora.

A recepção, na hora, foi fria. Críticos como Sérgio Milliet e Sérgio Buarque de Holanda reconheceram o talento da autora, mas apontaram o que chamaram de preciosismo e uma linguagem difícil demais para o gosto médio do leitor brasileiro dos anos 1940. Clarice levou a crítica a sério: revisou o texto para uma segunda edição, tentando limar excessos. O livro nunca deslanchou mesmo assim. Décadas depois, quando editoras internacionais já haviam traduzido praticamente toda a obra de Clarice para o inglês, “A Cidade Sitiada” ainda esperava a sua vez — só chegou aos leitores anglófonos em 2019, pela New Directions, com tradução de Johnny Lorenz e introdução de Benjamin Moser. Foi a última peça grande do quebra-cabeça a se encaixar.

Lucrécia Neves e o subúrbio que queria virar cidade

A protagonista é Lucrécia Neves, moradora de São Geraldo, um subúrbio fictício em transformação nos anos 1920. São Geraldo é um lugar sonolento, quase parado no tempo, que começa a sentir os efeitos da industrialização e do crescimento urbano — ruas que se abrem, casas que substituem o mato, uma vida coletiva que muda de forma.

Lucrécia observa tudo isso com uma mistura de fascínio e cálculo. Ao contrário de outras protagonistas de Clarice, ela não é dada a grandes epifanias interiores: é uma moça prática, atenta à própria aparência e ao que os outros veem nela, que decide se casar com Mateus — um homem mais velho, de fora da cidade, com quem não está apaixonada, mas que representa a possibilidade de sair dali. O casamento a leva para a cidade grande. A mudança, porém, não a completa como ela esperava: Lucrécia é tomada por uma nostalgia do subúrbio que deixou para trás e, com o tempo, volta a se aproximar dele.

Sem entregar o desfecho, vale dizer que o restante do romance segue essa mesma lógica de espera e adiamento: Lucrécia segue aguardando um acontecimento que finalmente a transforme, enquanto São Geraldo, ao seu redor, vai deixando de ser subúrbio para virar cidade. A trama, no sentido convencional, é rarefeita. O que sustenta o livro é outra coisa.

O olhar como forma de estar no mundo

É na construção de Lucrécia que “A Cidade Sitiada” se torna um romance genuinamente estranho dentro da obra de Clarice. Em vez de mergulhar no fluxo de consciência que marca “A Paixão Segundo G.H.” ou “Água Viva”, a autora narra em terceira pessoa, em capítulos curtos, quase secos, e desloca o centro de gravidade da personagem para fora dela mesma. Tudo o que Lucrécia consegue saber de si é externo: o reflexo em vitrines, o efeito que causa nos homens, os objetos que possui, a cidade que a cerca. Ela se relaciona com o mundo através do olhar e da superfície das coisas, quase nunca através da reflexão.

Essa fusão entre personagem e lugar é o motor simbólico do romance: Lucrécia é São Geraldo, e São Geraldo é Lucrécia. As duas crescem, se modernizam e se perdem da própria origem no mesmo movimento. Há uma imagem recorrente na crítica sobre o livro — a de um cavalo que olha fixamente para a porta do estábulo, sem elaborar o que vê, apenas registrando — usada para descrever como Lucrécia processa o real: sem o filtro interpretativo que Clarice costuma dar às suas narradoras. É um romance sobre uma consciência que mal se sabe consciência, construída a partir de objetos, vitrines, roupas e do valor que uma pequena cidade em ascensão passa a dar às aparências.

O estilo acompanha essa opacidade. As frases de “A Cidade Sitiada” são mais longas e mais sinuosas que as de “A Hora da Estrela”, cheias de inversões e de uma sintaxe que resiste à leitura rápida. Não há o ritmo quase falado de “Laços de Família”, nem a urgência confessional de “Água Viva”. Há, em vez disso, uma prosa deliberadamente instável, que imita a indefinição da própria personagem — alguém que ainda não sabe nomear o que sente, numa cidade que também ainda não sabe o que está se tornando.

Por que é considerado o romance mais difícil da autora

Clarice Lispector já não é, para ninguém, uma autora fácil. Mas dentro da própria obra dela existe uma escala de dificuldade, e “A Cidade Sitiada” costuma aparecer no topo. A razão não é só o vocabulário ou o comprimento das frases — é a ausência do que costuma funcionar como porta de entrada nos outros romances: uma voz interior confessional guiando o leitor, um enredo com tensão dramática clara, uma protagonista com quem seja fácil se identificar emocionalmente.

Lucrécia Neves é, de propósito, uma personagem de superfície. Isso torna o livro mais hermético do ponto de vista da leitura convencional, mas também mais radical do ponto de vista literário: Clarice está tentando escrever a experiência de alguém sem vida interior articulada, e para isso precisa abrir mão das próprias ferramentas que a consagraram. Resenhas contemporâneas do livro — tanto as brasileiras quanto as que surgiram décadas depois, em torno da tradução americana — repetem a mesma observação: é a obra menos comentada e menos estudada da autora, um degrau abaixo até de romances já considerados difíceis como “O Lustre” ou “A Maçã no Escuro”.

Some-se a isso o fato de que “A Cidade Sitiada” não tem um momento icônico equivalente à barata de “A Paixão Segundo G.H.” ou à morte de Macabéa em “A Hora da Estrela” — cenas que funcionam como resumo e porta de entrada para leitores que nunca leram Clarice. Sem essa cena-âncora, sem uma primeira pessoa que dramatize a crise, o livro fica mais difícil de recomendar, de citar, de ensinar. Não é um romance sobre uma epifania. É um romance sobre a ausência dela.

Vale a pena ler mesmo assim

Ler “A Cidade Sitiada” depois de “A Hora da Estrela” ou “Perto do Coração Selvagem” é um exercício de reajuste de expectativa. Não vem daí o prazer imediato de reconhecer a Clarice confessional, aforismática, quase oracular que tantos leitores aprenderam a esperar. Vem de outro lugar: da curiosidade de ver a mesma escritora testando um método completamente diferente, tentando dar forma literária a uma consciência que se define pelo que vê e pelo que os outros veem nela — um assunto, aliás, cada vez mais atual, numa época obcecada com aparência e vitrine.

É também, justamente por isso, um livro melhor lido depois de outros Clarice — não como porta de entrada, mas como reencontro. Quem já conhece a autora encontra em “A Cidade Sitiada” a prova de que ela nunca se repetiu, nem mesmo nos primeiros anos de carreira, e de que sua obsessão com o que significa existir, olhar e ser olhado já estava lá desde o começo, só que formulada de um jeito que o Brasil de 1949 — e, por muito tempo, o resto do mundo — não soube muito bem o que fazer com ela.


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