
Uma era marcada pelo grito televisivo
Em 1976, o apresentador Howard Beale, personagem do clássico “Network – Rede de Intrigas”, entrou ao vivo nos estúdios de uma emissora de TV, rompeu o protocolo e soltou um grito que ecoaria por décadas:
“Eu estou louco e não vou mais tolerar isso!”.
O desabafo, longe de encerrar sua carreira, acabou por impulsionar a audiência do canal a níveis inéditos. A mensagem estava clara: A emoção e não mais a informação, se tornou o verdadeiro produto para as mídias, em especial a televisão.
Quase meio século depois, a lógica permanece a mesma, só que agora em novos veículos.
Em vez de apresentadores diante de câmeras fixas, temos influenciadores, anônimos e marcas em milhões de vídeos verticais de poucos segundos, alguns literalmente à beira de colapsos.
O gritar virou trend no TikTok. A indignação virou estratégia. E a audiência, que antes era o objetivo das grandes corporações de mídia, tornou-se a moeda que move um exército de trabalhadores invisíveis, performando emoções para alimentar algoritmos.

Do infotenimento ao infovício
O surto nervoso de Beale virou trend no TikTok; sua indignação foi reciclada em reacts, exposeds e em diversas lives inflamadas. A audiência continua sendo o objetivo final, mas agora somos quase todos nós os protagonistas e as mercadorias.
Se o filme Network antecipou a transição do jornalismo tradicional para o que hoje chamamos de “infotenimento”, ou seja, a fusão entre notícia e espetáculo, informação somada à performance, a audiência deixou de ser passiva e passou a exigir cada vez mais estímulo.
Hoje, não basta noticiar, é preciso emocionar, alternar o tom de voz, equilibrar a trilha sonora, provocar e quase tudo é válido para gerar o tão sonhado engajamento.
Essa transformação criou um cenário em que a raiva, a comoção e a indignação são capitalizadas como nunca na história. Um vídeo de denúncia viraliza mais que uma reportagem investigativa; uma discussão no X (antigo Twitter) rende mais alcance que uma análise detalhada por especialistas.
O público, por sua vez, aprendeu a performar emoções para participar do jogo, e os algoritmos recompensam isso com visibilidade, dinheiro e validação digital.
A era da performance: todos somos
Se a grande promessa da virada do século foi a democratização das ferramentas de produção de conteúdo. Afinal, qualquer pessoa com um celular pode ser repórter, apresentador ou protagonista de seu próprio reality show, o reverso dessa moeda é a completa dissolução da fronteira entre consumidor e criador.
Somos a mídia e o produto ao mesmo tempo.
O que isso significa na prática? Que não apenas consumimos indignação, nós a fabricamos. A lógica do “conteúdo que viraliza” é a mesma de Network: entregar ao público aquilo que o mantém assistindo. Preso em uma emissora ou plataforma.
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Entretanto, a diferença é que, na era do TikTok e do Instagram, a linha entre entretenimento e realidade se tornou ainda mais turva. O colapso é conteúdo. A polêmica é estratégia. O caos é negócio.
Resultando em um novo formato de exploração da mão de obra humana que já vem sendo estudado por especialistas.
É o que se chama de microtrabalho e pode envolver desde a participação em pesquisas de mercado e testes de produto até treinar sistemas de inteligência artificial ou simplesmente acessar sites, dar curtidas em postagens, assistir a vídeos, realizar exaustivas horas de lives e outros conteúdos para gerar audiência para as big techs.
Segundo o estudo Fabricar os dados: o trabalho por trás da Inteligência Artificial, do Laboratório de Trabalho, Plataformização e Saúde (LATRAPS), vinculado à Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), as mulheres respondem por 63% da mão de obra por trás das microtarefas. Em outros países, o quadro praticamente se inverte, e os homens são 70% dos trabalhadores das plataformas.

A polêmica é estratégia. O caos é negócio. Imagem: Agência CSP
A nova era do jornalismo sob pressão
No meio desse turbilhão de mudanças, tanto no consumo como na produção e disseminação da informação no mundo digital, o jornalismo tenta se reinventar.
As redações, mais do que nunca, agora pensam em clickbait, SEO, watchtime, engajamento nas redes e métricas que determinam relevância e receita de jornais, revistas e portais de notícias.
E o risco de transformar a informação em um espetáculo vazio, sem fontes, sem verificação dos fatos e diluindo seu papel crítico em meio à avalanche de conteúdo performático virou uma realidade.
Para sobreviver em um mercado diluído e pouco remunerado, os grandes e mais tradicionais veículos de imprensa, como o Estadão, a Folha de S. Paulo e O Globo, criaram setores específicos para a produção de conteúdo voltado para marcas.

E, em meio a diversos publieditoriais e propagandas, as notícias ficam soltas, sem nenhuma lógica para os leitores.
No entanto, há quem veja nisso uma oportunidade de repensar o jornalismo como ferramenta de conexão genuína com a sociedade e construção de novos significados em tempos de ruído.
Em um cenário saturado de vozes gritando, talvez o verdadeiro diferencial seja quem ainda tem algo a dizer.
Afinal, estamos dizendo algo?
Se Howard Beale gritava na televisão para ser ouvido, hoje gritamos em vídeos curtos, trends e dancinhas na esperança de sermos vistos. Mas a pergunta que fica é incômoda: estamos realmente dizendo algo ou apenas competindo para gritar mais alto que os outros?
Enquanto isso, o “império da audiência” continua governando, só mudou de endereço. E, enquanto a performance seguir valendo mais que o embasamento e a relevância dos fatos, a linha entre espetáculo e realidade continuará cada vez mais difícil de enxergar, gerando uma sociedade cada vez mais alienada e subordinada às decisões de seus governantes.
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