
Quando Lorde anunciou “Virgin” com um raio-X de sua pélvis exibindo um DIU, não estava apenas revelando uma nova capa de álbum, ela estava proclamando um manifesto artístico.
Seu quarto álbum de estúdio, lançado em 27 de junho de 2025 pela Universal Music, representa um renascimento criativo que mergulha radicalmente na corporalidade, identidade e trauma, marcando seu retorno mais potente desde “Melodrama”.
A Reinvenção Sonora e Temática
Musicalmente, “Virgin” significa uma mudança significativa na trajetória de Lorde. Pela primeira vez desde o lançamento de seu primeiro álbum “Pure Heroine”, a artista deixou de lado a colaboração com Jack Antonoff, unindo-se ao produtor Jim-E Stack.
O resultado é um som que retorna às bases eletrônicas de “Melodrama“, mas com uma abordagem mais crua e física. As batidas percussivas dominam o álbum, priorizando o impacto corporal antes do cerebral – uma escolha que ressoa especialmente em faixas como “What Was That” e “Man of the Year“.

Imagem: Thistle Brown/Divulgação | Edição: Agência CSP
Com uma produção mais minimalista e contida que trabalhos anteriores, “Virgin” consegue criar um espaço negativo suficiente para destacar a voz e as letras visceralmente honestas de Lorde.
Esta contenção proposital, embora cativante, levanta questões sobre oportunidades perdidas para arranjos mais ousados, especialmente na segunda metade do álbum.
Transparência Radical como Princípio Guia
O conceito de “transparência total” permeia não apenas a estética visual, mas o cerne temático de “Virgin”.
Lorde explora a experiência de habitar um corpo com uma honestidade que beira o grotesco glorioso, abordando abertamente sua história de transtorno alimentar em “Broken Glass“, uma crise de gravidez em “Clearblue” e a jornada de reconexão corporal após anos de distúrbio de imagem.
A abertura “Hammer” estabelece imediatamente o tom com a declaração:
“Alguns dias sou mulher, alguns dias sou homem”, estabelecendo a fluidez de gênero como tema central.
Esta exploração identitária atinge seu ápice em “Man of the Year“, enquanto “Current Affairs” introduz imagens sexuais explícitas e francas, distanciando-se significativamente de seus trabalhos anteriores.
Talvez o tema mais comovente seja o do trauma geracional. Em “Favourite Daughter” e “GRWM“, Lorde investiga sua relação com a mãe, a poetisa Sonja Yelich, examinando como carrega o trauma materno em seu próprio corpo.
Deixando uma reflexão que ressoa profundamente em uma geração que lida com heranças emocionais complexas.

Imagem: Divulgação | Edição: Agência CSP
A Estética como Extensão do Conceito
A escolha estética de “Virgin” funciona como declaração de princípios autonomamente significativa.
A capa, concebida para representar “transparência total“, e a descrição da paleta cromática do álbum como “clara, como água do banho, janelas, gelo, cuspe”, reforçam a intenção de criar um documento que reflita a feminilidade em todas suas facetas: “crua, primitiva, inocente, elegante, de coração aberto, espiritual, masculina”.
Faixas que Definem a Jornada
Entre as onze faixas do álbum, algumas se destacam como cartografias precisas da transformação artística de Lorde.
“Hammer” abre o trabalho com a admissão de que está “pronta para sentir como se não tivesse as respostas“, afastando-se conscientemente da persona onisciente de seus primeiros álbuns.
“Man of the Year” constrói uma jornada sonora que evolui do minimalismo ao caos sintetizado, espelhando sua exploração da fluidez de gênero. “Clearblue“, talvez a faixa mais vulnerável, confronta um susto de gravidez e o trauma sanguíneo herdado de ancestrais em uma composição quase acapella com camadas de vocoder.
Já na faixa “Broken Glass” demonstra sua capacidade de transformar dor em pop contundente, contrastando batidas aeróbicas com letras sombrias sobre transtorno alimentar.

Imagem: Thistle Brown/Divulgação | Edição: Agência CSP
O Veredito: Renascimento em Andamento
“Virgin” não é um álbum sobre ter todas as respostas, mas sobre abraçar a beleza caótica de não tê-las. O que parece ser uma tendência na indústria da música pop, sendo apresentado nos álbuns: “Brat” de Charlie XCX, “That’s Showbiz Baby!” de Jade e “Mayhem” de Lady Gaga.
É o trabalho mais corajoso e humano de Lorde até agora, onde a honestidade brutal e a vulnerabilidade radical emergem como suas maiores forças.
A mudança para produção mais física e percussiva com Jim-E Stack prova-se um acerto, trazendo nova energia para sua música.
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No entanto, como notado por alguns críticos, o álbum ocasionalmente sofre de produção excessivamente contida e uma segunda metade irregular comparada ao impacto da primeira.
Em um cenário pop atual dominado por produções maximalistas, questiona-se se esta contenção representa virtude ou limitação.
Em uma última análise, “Virgin” apresenta a Lorde que sempre esperaram, mas através de uma lente que ninguém poderia ter previsto totalmente.
A artista já não busca ser uma figura distante e sábia, mas sim uma criadora em constante processo de tornar-se – e é nesta jornada imperfeita e visceral que encontra sua mais poderosa reinvenção.
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