
Macabéa não sabe que é miserável. Essa é a frase que Clarice Lispector não escreve diretamente em A Hora da Estrela, mas que o romance inteiro demonstra. A protagonista do último livro de Clarice — nordestina de 19 anos, datilógrafa no Rio de Janeiro, que come cachorro-quente e escuta Rádio Relógio — é uma das personagens mais comentadas da literatura brasileira. E também uma das mais mal compreendidas.
Quem é Macabéa
Macabéa nasceu em Alagoas, perdeu os pais cedo e foi criada por uma tia beata que morreu antes de ela terminar o ensino fundamental. Chegou ao Rio sem habilidades específicas, sem rede social, sem consciência de sua própria posição. Trabalha como datilógrafa porque é o emprego que conseguiu — apesar de errar muito na máquina. Divide um quarto de pensão com quatro outras nordestinas. Come sanduíches e toma Coca-Cola. Escuta fragmentos do Rádio Relógio — datas, efemérides, informações aleatórias — e os acumula sem entender completamente o que significam.
O paradoxo central
O que torna Macabéa uma personagem literária extraordinária é o paradoxo que Clarice constrói ao redor dela: uma personagem que parece não ter vida interior — que parece não entender o mundo ao redor, que parece não ter consciência da própria situação — e que, exatamente por isso, possui uma qualidade que o narrador Rodrigo S. M. (e, por extensão, o leitor de classe média) não consegue replicar.

Macabéa não está fingindo. Ela genuinamente não sabe que é pobre no sentido em que as pessoas ao redor dela entendem. Ela encontra alegria em coisas pequenas — uma propaganda de refrigerante, o fato de que o imperador da China existiu, o sabor de uma Coca-Cola gelada. Não é ingenuidade. É uma forma de presença no mundo que a cultura que a excluiu não consegue nem nomear.
Macabéa e Olímpico
O namorado de Macabéa — Olímpico de Jesus Moreira Chaves, nordestino metalúrgico com ambições de deputado federal — é tão pobre de recursos quanto ela. Mas ele sabe que quer ascender. Trata Macabéa com o desprezo de quem precisa se sentir superior a alguém. A relação entre os dois é um dos retratos mais precisos de como a precariedade econômica produz hierarquias internas.

O final e o que ele significa
Macabéa vai a uma cartomante — indicada pela rival Glória, que ficou com Olímpico — e recebe uma profecia extraordinária: um estrangeiro loiro vai aparecer na vida dela e tudo vai mudar. Ela sai para a rua com o coração cheio de esperança. E é atropelada por um Mercedes amarelo.
O final não é cruel sem razão. É a lógica do mundo que Clarice está descrevendo levada à conclusão: o mundo que não vê Macabéa também não desvia para ela. A esperança que a cartomante plantou é a crueldade final — Macabéa morre no momento em que, pela primeira vez, acreditou que o futuro existia.
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