
Havia uma rachadura numa parede em ruínas no bairro da Boa Vista, no Recife, e por ela era possível ver o que sobrou da casa onde Clarice Lispector morou quando adolescente. Foi olhando para essa fresta que a diretora pernambucana Renata Pinheiro e o roteirista Sérgio Oliveira tiveram a ideia de “Lispectorante”, filme que estreou nos cinemas do Recife em 8 de maio de 2025 e que, antes disso, já havia passado pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2024. Oliveira chegou a comparar o abandono do imóvel ao da casa de James Joyce em Dublin: um lugar que deveria ser memória viva de uma escritora fundamental e que, em vez disso, se decompõe à vista de quem passa.
É dessa ruína concreta, e não de nenhum romance específico de Clarice, que nasce o filme. “Lispectorante” não é uma cinebiografia nem uma adaptação literal de nenhuma obra da autora. Segundo a própria Renata Pinheiro, o título tenta nomear “uma sensação” — algo que ela compara ao efeito de “uma droga alucinógena” sobre quem lê Clarice. É essa sensação, mais do que qualquer enredo biográfico, que o filme tenta colocar na tela.
A rachadura que virou filme
A protagonista se chama Glória Hartman, artista plástica em crise pessoal, profissional e financeira que retorna ao Recife depois de um período afastada da própria produção. A narrativa se desenrola no entorno da Boa Vista, bairro onde Clarice morou até os 16 anos, com uma estátua da escritora na praça funcionando quase como uma personagem — um observador silencioso das voltas que Glória dá pela cidade.
A casa em ruínas não é cenário decorativo: é o ponto de virada da história. Ao circular por aquele território de memória, arte e afeto, Glória encontra, nas frestas do prédio abandonado, algo que se aproxima de outro mundo — uma realidade paralela que rompe com a lógica do cotidiano e devolve a ela, segundo a diretora, “a fantasia, o desejo e o impulso de viver”.
Marcélia Cartaxo entre Macabéa e Glória
A escolha de Marcélia Cartaxo para o papel central carrega um peso que vai além da atuação. Em 1985, ela havia sido Macabéa em “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral, uma das adaptações mais lembradas da obra de Clarice Lispector e o papel que projetou a atriz paraibana nacionalmente. Quase quatro décadas depois, Cartaxo volta ao universo da escritora, agora não mais como a personagem que Clarice escreveu, mas como uma mulher que atravessa o espaço físico onde a própria Clarice cresceu.
A sobreposição é proposital. Não se trata de repetir Macabéa nem de fazer uma sequência disfarçada: é reunir, na mesma atriz, duas camadas de relação com Clarice Lispector — a personagem literária que ela encarnou no cinema e, agora, o espaço biográfico real da autora. Entre uma coisa e outra, ficam décadas de carreira e uma trajetória que passa a dialogar diretamente com a história que “Lispectorante” está contando.
Nem biografia, nem adaptação: melodrama, sci-fi e frevo
O filme se recusa a se encaixar num gênero só. A crítica da Revista Continente descreve uma mistura de melodrama, ficção científica, rock e frevo, com uma fotografia de composição clássica e simétrica que contrasta deliberadamente com o que a diretora chama de irreal, do confuso, da imaginação. O resultado é um cinema fantástico assumido, que usa o espaço urbano degradado do centro do Recife como fronteira entre o real e o que está além dele.
Essa opção estética distancia “Lispectorante” tanto do documentário quanto da cinebiografia tradicional, formatos que costumam reduzir uma escritora complexa a uma cronologia de fatos verificáveis. Em vez de reconstituir a vida de Clarice Lispector cena a cena, o filme tenta reproduzir algo mais difícil de filmar: o efeito de estranhamento que a prosa dela provoca em quem lê. É um risco — e também uma aposta de que existe outra forma de homenagear uma escritora além de contar sua biografia.
A equipe técnica reúne nomes ligados ao cinema pernambucano contemporâneo, com fotografia de Wilsa Esser e trilha sonora assinada por Guile Martins, Benke Ferraz, Maurício Fleury e Sankirtana Dharma. Ao lado de Marcélia Cartaxo, o elenco inclui Pedro Wagner, Grace Passô e Tavinho Teixeira em participação especial. A distribuição do longa é da Embaúba Filmes, e depois da estreia no Recife o filme seguiu circulando por outras cidades — em Porto Alegre, por exemplo, chegou às salas do Cinebancários.
Por que isso importa para quem lê Clarice hoje
Clarice Lispector já foi tema de biografias, documentários, adaptações fiéis e citações soltas em redes sociais que raramente têm a ver com o que ela escreveu. “Lispectorante” propõe outro caminho: em vez de explicar Clarice, tenta produzir um efeito parecido com o de ler Clarice. É uma aposta arriscada, porque cinema fantástico e experimental não tem o apelo imediato de uma cinebiografia com data, elenco de época e reconstituição histórica.
Mas é justamente esse risco que torna o filme relevante para quem acompanha a obra da escritora além do lugar-comum. A casa onde ela morou, hoje em ruínas no meio do Recife, deixa de ser só uma nota de rodapé biográfica e vira matéria narrativa. E o reencontro com Marcélia Cartaxo, décadas depois de Macabéa, lembra que a presença de Clarice Lispector na cultura brasileira segue se reinventando — inclusive nas rachaduras de uma parede que quase ninguém mais olhava.
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