
A estreia está prevista para setembro de 2026. O mês não marca apenas a reta final do calendário eleitoral brasileiro; é também a data prevista para a estreia internacional de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel, ator eternizado como o Jesus de A Paixão de Cristo.
Contudo, a meses da primeira sessão comercial, o longa dirigido pelo iraniano-americano Cyrus Nowrasteh e roteirizado pelo deputado federal Mário Frias já alcançou um feito raro: tornou-se o centro de uma tempestade política, policial e financeira.
A obra mobiliza partidos, sindicatos, tribunais, parlamentares e agências de notícias globais antes mesmo de vender um único ingresso.
O eixo do debate público mudou. Já não importa se o filme é “pró” ou “contra” Bolsonaro. O que emerge do cruzamento de apurações de veículos como Metrópoles, InfoMoney, Folha de S.Paulo, O Globo, Intercept Brasil, Reuters e The Guardian é muito mais denso: como uma superprodução sem lastro comercial no mercado audiovisual, associada a um banqueiro investigado e cercada de emendas parlamentares e contratos públicos milionários sob escrutínio, converteu-se no mais ambicioso laboratório de construção mitológica do Brasil?

A fábrica de mitos
O próprio título entrega a ambição narrativa, como destaca a Rolling Stone Brasil ao analisar a história da obra. Dark Horse — o “azarão” — empacota Bolsonaro como o político antissistema que tritura adversários poderosos até capturar o Palácio do Planalto. O motor dramático central é a facada de 2018, em Juiz de Fora, retratada não apenas como um atentado histórico, mas como uma transfiguração mística. O protagonista deixa o leito do hospital mais forte, mais popular e definitivamente consolidado como mártir político.
Vazamentos do roteiro analisados pela imprensa evidenciam que a obra se distancia de uma reconstituição biográfica estrita. O texto funde suspense, ação militar, conspirações internacionais e uma pesada carga de alegoria religiosa. Na Amazônia ficcionalizada, o enredo espreme traficantes, indígenas e militares.
Na narrativa adaptada, Adélio Bispo vira “Aurélio Barba”, transformado em mero peão de “marxistas que usavam drogas demais”. Uma personagem decalcada da ex-ministra Damares Alves surge como figura esotérica, entregando “pílulas mágicas” artesanais que auxiliam na cura do herói — uma sequência que amalgama fervor evangélico a uma inquestionável proteção divina.
O desfecho agrava o tom bélico. O script projeta a condenação de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal a 43 anos de prisão por tentativa de golpe — uma pena superior às discutidas nos processos reais em curso. Um personagem “magro e careca”, que o próprio texto indica que “poderia ser um ministro do STF”, serve como aparente alusão a Alexandre de Moraes.
A cena final mostra uma reunião secreta de inimigos do protagonista enquanto a posse presidencial corre na televisão. Alguém desliga o aparelho. A conspiração, sugere a tela preta, continua.
A escalação de Jim Caviezel carrega um peso monumental. Ao dar o papel ao homem que emprestou o rosto a Cristo no cinema, a produção acopla, visual e simbolicamente, a trajetória do político à do mártir religioso. “A cinebiografia do controverso ex-presidente, que o retrata como um herói”, resumiu a agência alemã DPA.
Trata-se de um thriller ideológico estruturado para eternizar símbolos, nomear antagonistas e projetar uma narrativa de perseguição em torno de um líder político ativo e atualmente inelegível.
O inferno no set de filmagem
Enquanto o roteiro tratava da construção do mito, a realidade das gravações gerou reações incisivas dos trabalhadores. Figurantes e técnicos recorreram à Justiça para denunciar condições degradantes nos sets de filmagem. A imprensa documentou relatos de um calvário operacional: atrasos sistemáticos de pagamento, alimentação inadequada, restrição ao uso de banheiros, confisco de celulares e até queixas de agressões físicas.
“É inadmissível a gente lidar com esse volume de denúncias de uma produção que vem de fora do país, não cumpre a legislação local e não apresenta os contratos de trabalho”, cravou Rita Teles, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated-SP), em entrevista à revista Fórum.
Segundo as denúncias, para contornar a fiscalização e as convenções trabalhistas, a equipe adotou uma tática de camuflagem. Em locações cedidas pelo poder público, a identidade de Dark Horse era suprimida — gestores de espaços relataram acreditar que apoiavam a gravação de um filme sobre um “soldado”.
Ainda assim, o rígido controle imposto aos funcionários não impediu que vídeos e fotos chegassem às redes sociais meses antes da estreia.
A produtora sem histórico, mas orçamento milionário
A estruturação empresarial nos bastidores levanta os maiores questionamentos sobre o projeto. Como revelou a colunista Malu Gaspar (O Globo), a produtora brasileira associada ao grupo GoUp Entertainment não ostenta registros expressivos na Agência Nacional do Cinema (Ancine), carecendo de histórico no lançamento de longas-metragens comerciais.
Em dezembro de 2025, o Intercept Brasil dissecou as engrenagens em torno da produtora executiva Karina Ferreira da Gama. Embora não apresentasse um currículo denso no audiovisual, Karina demonstrou notável trânsito político e acesso a contratos públicos volumosos.
Karina preside o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização que firmou um contrato de R$ 108 milhões com a gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), focado na instalação de internet Wi-Fi em comunidades vulneráveis. Mesmo sem expertise documentada no setor de telecomunicações, o ICB venceu o certame como concorrente único.
O Tribunal de Contas do Município (TCM) chegou a apontar 20 irregularidades e recomendou a paralisação do edital, mas a prefeitura manteve a contratação.
Os valores da operação paulistana chamaram a atenção de investigadores: a prefeitura, que costumava pagar R$ 230 por ponto de internet a uma empresa municipal, passou a arcar com R$ 1.800 pelo mesmo serviço prestado pelo ICB. A execução do contrato ganhou ritmo acelerado ao longo de 2024, em compasso com o calendário eleitoral que culminou na reeleição de Nunes, para sofrer uma drástica desaceleração após o segundo turno.
Registros apontam que a ONG recebeu repasses na ordem de R$ 26 milhões antes da conclusão integral das entregas previstas.
A teia de financiamento se estende ao Congresso. Outra entidade ligada a Karina, a Academia Nacional de Cultura (ANC), garantiu R$ 2,6 milhões via emendas Pix de parlamentares do PL — incluindo Alexandre Ramagem, Carla Zambelli e Bia Kicis — para a série documental Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende, projeto que não apresentou resultados concretos ao público.
O próprio Mário Frias, um dos produtores de Dark Horse, direcionou R$ 2 milhões de suas emendas parlamentares para o ICB em 2025, além de já ter contratado a empresa de Karina em sua campanha eleitoral de 2022 por R$ 54 mil.
O rastreio das ramificações internacionais adiciona camadas de complexidade. A GoUp brasileira pertence integralmente a Karina. O endereço em Los Angeles, apresentado como indicativo de musculatura internacional da empresa, leva às instalações da Damascus Road — uma produtora de filmes de baixo orçamento habituada a trabalhar com o diretor Cyrus Nowrasteh.
Diante do quadro, a pergunta central permanece sem resposta oficial: qual é a origem real dos recursos e quem, de fato, se beneficia financeiramente da engrenagem de Dark Horse?

Um banqueiro, Um senador e os áudios
A investigação sobre os aportes do filme cruzou o caminho das operações da Polícia Federal. Em maio de 2026, o debate sobre o financiamento do longa ganhou materialidade incontestável ao virem a público, conforme apurações da Reuters e do The Guardian, evidências de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, havia intermediado a captação de milhões de dólares junto ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tornou-se alvo e acabou preso no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas estruturais de fraude e lavagem de dinheiro. As cifras discutidas para o patrocínio de Dark Horse variam nas reportagens, beirando a casa dos US$ 24 milhões — o que colocaria a obra no topo das produções mais caras já associadas ao país.
A gestão de crise em torno do episódio gerou desgaste acentuado para Flávio Bolsonaro. Inicialmente, o senador negou proximidade com o banqueiro.
Após o vazamento de áudios e mensagens de texto, recuou e afirmou que as tratativas se limitavam a “relações comerciais legítimas”. Em entrevista à Agência Brasil, Flávio confirmou ter se reunido presencialmente com Vorcaro em novembro de 2025 — momento em que o executivo já havia passado por uma prisão preventiva e cumpria medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica.
A justificativa do senador para o encontro — colocar um “ponto final” na participação financeira do investigado no filme — foi recebida com ceticismo. Segundo o colunista José Casado (Veja), Flávio precisou circular pelo Congresso com pastas de documentos em uma operação de contenção de danos, tentando demonstrar aos pares a legalidade dos recursos.
O custo político foi imediato, levando a cúpula do PL a debater o recuo de sua pré-candidatura ao Planalto em favor de uma tentativa de reeleição ao Senado.
A produtora GoUp e os políticos citados negam reiteradamente qualquer irregularidade. No entanto, Mário Frias não respondeu aos questionamentos da imprensa sobre a coincidência entre suas emendas e a empresa ligada à produção do filme, tampouco se pronunciou sobre os áudios vazados que também documentam suas tratativas diretas com o ex-banqueiro preso.
A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, classificou como “irresponsável” qualquer tentativa de associar os contratos de Wi-Fi à cinebiografia.
Quando o cinema vira disputa de poder
Dark Horse ilustra a instrumentalização radical do cinema no tabuleiro político contemporâneo. A obra transcende o formato biográfico tradicional para atuar como ferramenta de influência narrativa, amalgamando eventos recentes, vilanizando instituições da República e projetando o sacrifício de um líder político. Tudo isso estruturado sobre um ecossistema sob pesada investigação, conectando um banqueiro preso, contratos públicos em xeque e repasses via emendas parlamentares de baixa transparência.
A maior ironia da produção é ter feito história muito antes do apagar das luzes nas salas de exibição. No Brasil, onde o cinema independente padece por financiamento, Dark Horse sequestrou o debate institucional. Enquanto a ficção tenta emplacar um thriller heroico nas telas, os bastidores entregaram um roteiro investigativo muito mais complexo, evidenciando as engrenagens cruzadas entre verbas milionárias e a disputa implacável pela memória política nacional.
A estreia internacional está cravada para setembro. Mas a verdadeira trama de Dark Horse já está em pleno andamento — e os indícios sugerem, cada vez mais, que a fatura final repousa sob a sombra dos cofres públicos.
E o que diz o roteiro
Com a eclosão das denúncias e controvérsias em torno da obra, partes substanciais do texto atribuído ao longa chegaram ao escrutínio da imprensa. O acesso a esses fragmentos desnudou a mecânica narrativa do projeto e suas pretensões alegóricas.
Ao invés de hospedar a íntegra do material — uma manobra que esbarraria em normativas de propriedade intelectual —, o Cansei De Ser Pop reforça seu compromisso com o jornalismo crítico apoiando-se no direito de citação.
O cruzamento das reportagens revelou os alicerces simbólicos da obra: a substituição do fato pela mitologia mística (a figura curandeira inspirada em ex-ministros), a criminalização especulativa das altas cortes de Brasília e a apropriação escancarada de arquétipos religiosos para referendar um projeto de poder terreno.
O pilar central do roteiro apresentado pela imprensa mostra, sem intermediários, que as câmeras não se voltaram para o passado com a intenção de documentá-lo, mas sim para o futuro, com o claro propósito de reescrevê-lo.
Acesse o roteiro completo de Dark Horse, na íntegra, via Drops de Jogos
Importante: O acesso ao material é oferecido estritamente para fins de análise jornalística, interesse público e contextualização desta reportagem.
Para a construção desta reportagem investigativa, o Cansei De Ser Pop realizou o cruzamento de dados, análise de documentos públicos e a curadoria de apurações originais conduzidas pelos seguintes veículos e instituições:
O Globo, Agência Brasil, Reuters, The Guardian, Metrópoles, Rolling Stone Brasil, InfoMoney, Folha de S.Paulo, Intercept Brasil, Veja, Drops de Jogos, além de registros oficiais da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP).
Envie para
um amigo
Seja um apoiador
Ao se tornar um apoiador, você passa a receber conteúdos exclusivos e participa de sorteios e promoções especiais para apoiadores.