DESTAQUES ESPECIAIS NOTÍCIAS

Dark Horse: O filme de Bolsonaro que virou thriller político com produtora sem histórico, contratos milionários e banqueiro preso

Antes mesmo de chegar aos cinemas, a cinebiografia do ex-presidente acumula denúncias trabalhistas, investigações financeiras e uma teia de bastidores muito mais obscura e intrincada do que o próprio roteiro.

Publicado em

Dark Horse: O filme de Bolsonaro que virou thriller político com produtora sem histórico, contratos milionários e banqueiro preso
Material promocional de Dark Horse reforça símbolos recorrentes do bolsonarismo — nacionalismo, religiosidade e perseguição política — presentes em trechos do roteiro divulgados pela imprensa. Imagem: Reprodução | Edição: Agência CSP

A estreia está prevista para setembro de 2026. O mês não marca apenas a reta final do calendário eleitoral brasileiro; é também a data prevista para a estreia internacional de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel, ator eternizado como o Jesus de A Paixão de Cristo.

Contudo, a meses da primeira sessão comercial, o longa dirigido pelo iraniano-americano Cyrus Nowrasteh e roteirizado pelo deputado federal Mário Frias já alcançou um feito raro: tornou-se o centro de uma tempestade política, policial e financeira.

A obra mobiliza partidos, sindicatos, tribunais, parlamentares e agências de notícias globais antes mesmo de vender um único ingresso.

O eixo do debate público mudou. Já não importa se o filme é “pró” ou “contra” Bolsonaro. O que emerge do cruzamento de apurações de veículos como Metrópoles, InfoMoney, Folha de S.Paulo, O Globo, Intercept Brasil, Reuters e The Guardian é muito mais denso: como uma superprodução sem lastro comercial no mercado audiovisual, associada a um banqueiro investigado e cercada de emendas parlamentares e contratos públicos milionários sob escrutínio, converteu-se no mais ambicioso laboratório de construção mitológica do Brasil?

Montagem reúne Jair Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Banco Master, dinheiro e roteiro de Dark Horse em referência às investigações sobre financiamento do filme.
A discussão sobre Dark Horse ultrapassou o cinema: reportagens ligam o financiamento do longa a negociações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro e questionamentos sobre recursos destinados ao projeto. Imagem: Reprodução | Edição: Agência CSP

A fábrica de mitos

O próprio título entrega a ambição narrativa, como destaca a Rolling Stone Brasil ao analisar a história da obra. Dark Horse — o “azarão” — empacota Bolsonaro como o político antissistema que tritura adversários poderosos até capturar o Palácio do Planalto. O motor dramático central é a facada de 2018, em Juiz de Fora, retratada não apenas como um atentado histórico, mas como uma transfiguração mística. O protagonista deixa o leito do hospital mais forte, mais popular e definitivamente consolidado como mártir político.

Vazamentos do roteiro analisados pela imprensa evidenciam que a obra se distancia de uma reconstituição biográfica estrita. O texto funde suspense, ação militar, conspirações internacionais e uma pesada carga de alegoria religiosa. Na Amazônia ficcionalizada, o enredo espreme traficantes, indígenas e militares.

Na narrativa adaptada, Adélio Bispo vira “Aurélio Barba”, transformado em mero peão de “marxistas que usavam drogas demais”. Uma personagem decalcada da ex-ministra Damares Alves surge como figura esotérica, entregando “pílulas mágicas” artesanais que auxiliam na cura do herói — uma sequência que amalgama fervor evangélico a uma inquestionável proteção divina.

O desfecho agrava o tom bélico. O script projeta a condenação de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal a 43 anos de prisão por tentativa de golpe — uma pena superior às discutidas nos processos reais em curso. Um personagem “magro e careca”, que o próprio texto indica que “poderia ser um ministro do STF”, serve como aparente alusão a Alexandre de Moraes.

A cena final mostra uma reunião secreta de inimigos do protagonista enquanto a posse presidencial corre na televisão. Alguém desliga o aparelho. A conspiração, sugere a tela preta, continua.

A escalação de Jim Caviezel carrega um peso monumental. Ao dar o papel ao homem que emprestou o rosto a Cristo no cinema, a produção acopla, visual e simbolicamente, a trajetória do político à do mártir religioso. “A cinebiografia do controverso ex-presidente, que o retrata como um herói”, resumiu a agência alemã DPA.

Trata-se de um thriller ideológico estruturado para eternizar símbolos, nomear antagonistas e projetar uma narrativa de perseguição em torno de um líder político ativo e atualmente inelegível.

O inferno no set de filmagem

Enquanto o roteiro tratava da construção do mito, a realidade das gravações gerou reações incisivas dos trabalhadores. Figurantes e técnicos recorreram à Justiça para denunciar condições degradantes nos sets de filmagem. A imprensa documentou relatos de um calvário operacional: atrasos sistemáticos de pagamento, alimentação inadequada, restrição ao uso de banheiros, confisco de celulares e até queixas de agressões físicas.

“É inadmissível a gente lidar com esse volume de denúncias de uma produção que vem de fora do país, não cumpre a legislação local e não apresenta os contratos de trabalho”, cravou Rita Teles, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated-SP), em entrevista à revista Fórum.

Segundo as denúncias, para contornar a fiscalização e as convenções trabalhistas, a equipe adotou uma tática de camuflagem. Em locações cedidas pelo poder público, a identidade de Dark Horse era suprimida — gestores de espaços relataram acreditar que apoiavam a gravação de um filme sobre um “soldado”.

Ainda assim, o rígido controle imposto aos funcionários não impediu que vídeos e fotos chegassem às redes sociais meses antes da estreia.

A produtora sem histórico, mas orçamento milionário

A estruturação empresarial nos bastidores levanta os maiores questionamentos sobre o projeto. Como revelou a colunista Malu Gaspar (O Globo), a produtora brasileira associada ao grupo GoUp Entertainment não ostenta registros expressivos na Agência Nacional do Cinema (Ancine), carecendo de histórico no lançamento de longas-metragens comerciais.

Em dezembro de 2025, o Intercept Brasil dissecou as engrenagens em torno da produtora executiva Karina Ferreira da Gama. Embora não apresentasse um currículo denso no audiovisual, Karina demonstrou notável trânsito político e acesso a contratos públicos volumosos.

Karina preside o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização que firmou um contrato de R$ 108 milhões com a gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), focado na instalação de internet Wi-Fi em comunidades vulneráveis. Mesmo sem expertise documentada no setor de telecomunicações, o ICB venceu o certame como concorrente único.

O Tribunal de Contas do Município (TCM) chegou a apontar 20 irregularidades e recomendou a paralisação do edital, mas a prefeitura manteve a contratação.

Os valores da operação paulistana chamaram a atenção de investigadores: a prefeitura, que costumava pagar R$ 230 por ponto de internet a uma empresa municipal, passou a arcar com R$ 1.800 pelo mesmo serviço prestado pelo ICB. A execução do contrato ganhou ritmo acelerado ao longo de 2024, em compasso com o calendário eleitoral que culminou na reeleição de Nunes, para sofrer uma drástica desaceleração após o segundo turno.

Registros apontam que a ONG recebeu repasses na ordem de R$ 26 milhões antes da conclusão integral das entregas previstas.

A teia de financiamento se estende ao Congresso. Outra entidade ligada a Karina, a Academia Nacional de Cultura (ANC), garantiu R$ 2,6 milhões via emendas Pix de parlamentares do PL — incluindo Alexandre Ramagem, Carla Zambelli e Bia Kicis — para a série documental Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende, projeto que não apresentou resultados concretos ao público.

O próprio Mário Frias, um dos produtores de Dark Horse, direcionou R$ 2 milhões de suas emendas parlamentares para o ICB em 2025, além de já ter contratado a empresa de Karina em sua campanha eleitoral de 2022 por R$ 54 mil.

O rastreio das ramificações internacionais adiciona camadas de complexidade. A GoUp brasileira pertence integralmente a Karina. O endereço em Los Angeles, apresentado como indicativo de musculatura internacional da empresa, leva às instalações da Damascus Road — uma produtora de filmes de baixo orçamento habituada a trabalhar com o diretor Cyrus Nowrasteh.

Diante do quadro, a pergunta central permanece sem resposta oficial: qual é a origem real dos recursos e quem, de fato, se beneficia financeiramente da engrenagem de Dark Horse?

Pôster oficial de Dark Horse mostra Jim Caviezel caracterizado como Jair Bolsonaro diante de céu escuro, em divulgação do filme cercado por polêmicas políticas e financeiras.
Jim Caviezel interpreta Jair Bolsonaro em Dark Horse, produção que mistura cinebiografia, thriller político e alegorias religiosas enquanto acumula controvérsias sobre financiamento, bastidores e conexões políticas antes mesmo da estreia. Imagem: Reprodução | Edição: Agência CSP

Um banqueiro, Um senador e os áudios

A investigação sobre os aportes do filme cruzou o caminho das operações da Polícia Federal. Em maio de 2026, o debate sobre o financiamento do longa ganhou materialidade incontestável ao virem a público, conforme apurações da Reuters e do The Guardian, evidências de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, havia intermediado a captação de milhões de dólares junto ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tornou-se alvo e acabou preso no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas estruturais de fraude e lavagem de dinheiro. As cifras discutidas para o patrocínio de Dark Horse variam nas reportagens, beirando a casa dos US$ 24 milhões — o que colocaria a obra no topo das produções mais caras já associadas ao país.

A gestão de crise em torno do episódio gerou desgaste acentuado para Flávio Bolsonaro. Inicialmente, o senador negou proximidade com o banqueiro.

Após o vazamento de áudios e mensagens de texto, recuou e afirmou que as tratativas se limitavam a “relações comerciais legítimas”. Em entrevista à Agência Brasil, Flávio confirmou ter se reunido presencialmente com Vorcaro em novembro de 2025 — momento em que o executivo já havia passado por uma prisão preventiva e cumpria medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica.

A justificativa do senador para o encontro — colocar um “ponto final” na participação financeira do investigado no filme — foi recebida com ceticismo. Segundo o colunista José Casado (Veja), Flávio precisou circular pelo Congresso com pastas de documentos em uma operação de contenção de danos, tentando demonstrar aos pares a legalidade dos recursos.

O custo político foi imediato, levando a cúpula do PL a debater o recuo de sua pré-candidatura ao Planalto em favor de uma tentativa de reeleição ao Senado.

A produtora GoUp e os políticos citados negam reiteradamente qualquer irregularidade. No entanto, Mário Frias não respondeu aos questionamentos da imprensa sobre a coincidência entre suas emendas e a empresa ligada à produção do filme, tampouco se pronunciou sobre os áudios vazados que também documentam suas tratativas diretas com o ex-banqueiro preso.

A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, classificou como “irresponsável” qualquer tentativa de associar os contratos de Wi-Fi à cinebiografia.

Quando o cinema vira disputa de poder

Dark Horse ilustra a instrumentalização radical do cinema no tabuleiro político contemporâneo. A obra transcende o formato biográfico tradicional para atuar como ferramenta de influência narrativa, amalgamando eventos recentes, vilanizando instituições da República e projetando o sacrifício de um líder político. Tudo isso estruturado sobre um ecossistema sob pesada investigação, conectando um banqueiro preso, contratos públicos em xeque e repasses via emendas parlamentares de baixa transparência.

A maior ironia da produção é ter feito história muito antes do apagar das luzes nas salas de exibição. No Brasil, onde o cinema independente padece por financiamento, Dark Horse sequestrou o debate institucional. Enquanto a ficção tenta emplacar um thriller heroico nas telas, os bastidores entregaram um roteiro investigativo muito mais complexo, evidenciando as engrenagens cruzadas entre verbas milionárias e a disputa implacável pela memória política nacional.

A estreia internacional está cravada para setembro. Mas a verdadeira trama de Dark Horse já está em pleno andamento — e os indícios sugerem, cada vez mais, que a fatura final repousa sob a sombra dos cofres públicos.

E o que diz o roteiro

Com a eclosão das denúncias e controvérsias em torno da obra, partes substanciais do texto atribuído ao longa chegaram ao escrutínio da imprensa. O acesso a esses fragmentos desnudou a mecânica narrativa do projeto e suas pretensões alegóricas.

Ao invés de hospedar a íntegra do material — uma manobra que esbarraria em normativas de propriedade intelectual —, o Cansei De Ser Pop reforça seu compromisso com o jornalismo crítico apoiando-se no direito de citação.

O cruzamento das reportagens revelou os alicerces simbólicos da obra: a substituição do fato pela mitologia mística (a figura curandeira inspirada em ex-ministros), a criminalização especulativa das altas cortes de Brasília e a apropriação escancarada de arquétipos religiosos para referendar um projeto de poder terreno.

O pilar central do roteiro apresentado pela imprensa mostra, sem intermediários, que as câmeras não se voltaram para o passado com a intenção de documentá-lo, mas sim para o futuro, com o claro propósito de reescrevê-lo.

Acesse o roteiro completo de Dark Horse, na íntegra, via Drops de Jogos

Importante: O acesso ao material é oferecido estritamente para fins de análise jornalística, interesse público e contextualização desta reportagem.

Para a construção desta reportagem investigativa, o Cansei De Ser Pop realizou o cruzamento de dados, análise de documentos públicos e a curadoria de apurações originais conduzidas pelos seguintes veículos e instituições:

O Globo, Agência Brasil, Reuters, The Guardian, Metrópoles, Rolling Stone Brasil, InfoMoney, Folha de S.Paulo, Intercept Brasil, Veja, Drops de Jogos, além de registros oficiais da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP).

Envie para
um amigo


Seja um apoiador

Ao se tornar um apoiador, você passa a receber conteúdos exclusivos e participa de sorteios e promoções especiais para apoiadores.

Comentários