
Existem contas no Instagram com centenas de milhares de seguidores, patrocínios de marcas de verdade e uma vida inteira documentada em fotos e stories e nenhuma pessoa por trás delas. São influenciadoras geradas por inteligência artificial, como a espanhola Aitana López ou a americana Lil Miquela, que existem há anos nesse limbo entre personagem e produto e que, para muita gente, já são simplesmente mais um rosto no feed. Ninguém tira satisfação com isso porque a pergunta que deveria vir antes — quem está, de fato, imaginando aquelas fotos de viagem que nunca aconteceram e quase nunca é feita.
É essa pergunta, num contexto teórico bem mais amplo do que o das influenciadoras virtuais, que estrutura O imaginário, a imagem, a voz, livro da pesquisadora e psicoterapeuta junguiana Malena Segura Contrera. A obra marca a estreia do Selo Hipátia, projeto editorial do Instituto do Imaginário em parceria com a CŽ Publisher dedicado a textos teóricos de Psicologia, Comunicação e Cultura, um nicho que, fora dos muros da universidade, quase não tem casa editorial própria no mercado brasileiro.
O filme dos anos 2000 que já tinha previsto isso
Contrera não escreveu um livro sobre inteligência artificial, mas dedica boa parte da Parte 1 do livro a pensar o fenômeno das imagens sintéticas, e cita um exemplo que qualquer cinéfilo vai reconhecer: o filme Simone (2002), em que Al Pacino interpreta um diretor de cinema que cria uma atriz inteiramente sintética, Simone, e a apresenta ao mundo como se fosse real, sucesso de bilheteria, entrevistas que ele precisa inventar, um público inteiro apaixonado por alguém que não existe.
Vinte e três anos depois de o filme estrear, a ficção virou rotina de feed. A diferença é que hoje ninguém mais precisa de um diretor de Hollywood para fazer isso: qualquer aplicativo de geração de imagem resolve.

Quatro jeitos de olhar para uma imagem e por que o nosso é o mais pobre deles
O argumento central do livro é que a imagem nunca foi só uma representação, um desenho, uma foto: ao longo da história, a humanidade se relacionou com ela de quatro formas diferentes, que não se substituem, apenas se acumulam. Para as culturas arcaicas, a imagem era um duplo atingir a imagem de alguém era atingir a própria pessoa, a lógica por trás de práticas como o vodu. Depois veio a imagem de culto, das religiões, que se acredita impregnada pelo sagrado.
Depois, a imagem como representação estética, a arte que se contempla nos museus. E, por fim, a partir do século 20, a imagem como simulacro: gerada por aparelhos que ninguém entende completamente, sem nenhuma experiência vivida por trás dela.
É nesse último estágio que Contrera situa tanto os simulacros da publicidade e da televisão quanto, indo além do que ela discute diretamente no livro, mas na mesma lógica, os retratos gerados por IA que circulam nas redes hoje. A tese é desconfortável: quanto mais tempo se passa consumindo esse tipo de imagem, menos espaço sobra para as imagens que vêm de dentro, dos sonhos, da imaginação de cada um. “Sem a imaginação“, escreve a autora, “somos despojados do que nos constitui como humanidade“.
Iconofagia: um nome para o cansaço de rolar o feed
O livro recupera um conceito do teórico da mídia Norval Baitello Jr., orientador de longa data de Contrera: iconofagia, a ideia de que imagens repetidas em excesso geram um vazio, e esse vazio, em vez de ensinar a diminuir o consumo, faz o oposto — pede mais imagens para tentar preenchê-lo, num ciclo que nunca fecha.
É uma boa definição técnica para uma sensação que qualquer pessoa que já passou horas rolando o Instagram sem lembrar de nada específico provavelmente reconhece. O sociólogo Edgar Morin, também citado no livro, resumiu esse mesmo problema numa frase que Contrera recupera: a superinformação não esclarece, ela “nos submerge no informe”.
Quem é Malena Segura Contrera
Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com pós-doutorado na UFRJ sob supervisão de Muniz Sodré, Contrera é professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista (PPGCOM-UNIP) desde 2005 e diretora científica do Instituto do Imaginário, que fundou em 2023. É autora de livros como Mediosfera, O Mito na Mídia e Mídia e Pânico, e participou da criação do Prêmio Eduardo Peñuela da Compós.
O que fica depois de fechar o livro
Não é um livro que promete parar de usar filtro ou deletar aplicativo e nem faria sentido cobrar isso dele. O que ele deixa, principalmente para quem passa parte do dia consumindo imagem em tela pequena, é uma pergunta simples de guardar: da próxima vez que uma foto perfeita demais aparecer no feed, vale perguntar não só se ela é real, mas se alguém, em algum momento, imaginou aquilo ou se só um algoritmo calculou o que provavelmente ia gerar mais um segundo de atenção.
Ficha técnica do livro
Título: O imaginário, a imagem, a voz
Autora: Malena Segura Contrera
Editora: CŽ Publisher — unidade editorial da CŽ Didaktička · Selo Hipátia
Publicação: agosto de 2026
Páginas: 124
Preço: R$ 63,00
ISBN: 978-65-984736-3-1
Capa: Luciano Pessoa
Formato: 16,5 × 23,5 cm
Classificação: Filosofia; Imagem; Imaginário; Psicologia Analítica
Onde comprar: Disponível na Amazon aqui!.

Perguntas frequentes
O que é O imaginário, a imagem, a voz?
É o novo livro da pesquisadora Malena Segura Contrera, dividido em três partes — Imagem, Imaginário e Voz —, que discute como imagens, mitos e sons participam da formação da consciência e da cultura contemporânea, incluindo o debate sobre imagens geradas por inteligência artificial.
Quem é Malena Segura Contrera?
Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professora titular da UNIP e diretora científica do Instituto do Imaginário, autora de livros como Mediosfera e O Mito na Mídia.
O que é o Selo Hipátia?
É o selo editorial do Instituto do Imaginário, em parceria com a CŽ Publisher, dedicado a textos teóricos de Psicologia, Comunicação e Cultura — O imaginário, a imagem, a voz é seu título de estreia.
O livro é contra a inteligência artificial?
Não é esse o argumento. O livro discute o que diferencia uma imagem simbólica de um simulacro, e usa a IA como um dos exemplos mais atuais desse segundo tipo — sem propor abandonar a tecnologia, mas sem deixar de perguntar o que ela custa.
Onde comprar o livro? A venda dos exemplares físicos já começou; a versão e-book na Amazon
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