
Em outubro de 2025, Byung-Chul Han recebeu o Prêmio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades — o reconhecimento mais alto que a Espanha concede a intelectuais, ao lado de nomes que passaram por ali como Jürgen Habermas, Umberto Eco e Amos Oz. Há uma ironia difícil de ignorar no meio disso: o prêmio é de “Comunicação”, e Han é, há anos, o filósofo mais lido do mundo que sistematicamente recusa dar entrevistas.
Vale entender o que é esse prêmio, o que a Fundación Princesa de Asturias reconheceu exatamente, e o que Han disse — porque o discurso de aceitação é uma das poucas vezes em que ele fala em público sem a mediação de um livro.
O que é o Prêmio Princesa de Astúrias
Criado em 1981 pela Fundación Princesa de Asturias, é um dos conjuntos de prêmios mais prestigiados do mundo de língua espanhola, concedido anualmente em oito categorias — das Artes às Ciências Sociais, passando por Comunicação e Humanidades, categoria de Han. A cerimônia de entrega acontece em Oviedo, na Espanha, com a presença da família real espanhola, e costuma reconhecer trajetórias já consolidadas internacionalmente, não lançamentos recentes.
O filósofo que não dá entrevistas
A reticência de Han à mídia não é um detalhe de personalidade — é quase um princípio de método. Ele evita plateias, debates públicos e entrevistas de imprensa com uma consistência rara para alguém com o volume de vendas que tem hoje. Por isso a cerimônia em Oviedo tem um peso duplo: é tanto o reconhecimento de uma obra quanto uma das raras aparições públicas do próprio autor, que normalmente prefere deixar seus livros falarem por ele.
O discurso: a metáfora do moscardo de Sócrates
No discurso de aceitação, Han recorreu à imagem socrática do moscardo (tábano) — o inseto que pica o cavalo preguiçoso para mantê-lo em movimento — para descrever seu próprio papel como filósofo: alguém que incomoda a consciência social com uma crítica irritante, mas necessária. É uma autodescrição consistente com o tom de toda sua obra recente, de Sociedade do Cansaço a Sem Respeito.
O núcleo do discurso repete e atualiza teses que atravessam seus livros dos últimos quinze anos: a liberdade prometida pela sociedade digital é, na visão de Han, ilusória — “nos convertemos em instrumentos dos smartphones”, praticando uma autoexploração que se sente como liberdade justamente por não ter um opressor visível. Ele advertiu sobre os riscos de uma digitalização e de uma inteligência artificial que avançam sem controle político efetivo, e apontou a erosão de virtudes cívicas básicas — respeito, confiança — como o vácuo ideológico que abre espaço para discursos autoritários. Não há tese nova aqui: há a consolidação pública, num palco que a imprensa internacional inteira cobriu, de um diagnóstico que Han já vinha construindo livro após livro.
A tensão que o prêmio não resolve
Há algo genuinamente irônico em premiar como “Comunicação” um pensador cuja obra inteira desconfia da hipercomunicação — do excesso de exposição, da transparência como forma de controle, da positividade que transforma tudo em vitrine. A cerimônia em Oviedo, com tapete vermelho, câmeras e discurso transmitido ao vivo, é exatamente o tipo de espetáculo de visibilidade que livros como Sociedade da Transparência tratam com desconfiança. Isso não invalida o prêmio nem o discurso — mas é uma tensão que vale nomear, não ignorar: mesmo o crítico mais consistente da sociedade do espetáculo precisa, em algum momento, subir ao palco.
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Para o perfil completo do autor: quem é Byung-Chul Han, o guia completo de sua obra em português e as críticas internacionais ao filósofo.
Perguntas frequentes
Quando Byung-Chul Han recebeu o Prêmio Princesa de Astúrias? Em outubro de 2025, na categoria Comunicação e Humanidades.
Han deu entrevistas depois do prêmio? O próprio discurso de aceitação é a manifestação pública mais extensa do autor em torno da premiação — ele mantém a postura de reticência à imprensa tradicional que já era conhecida antes do prêmio.
Quem já ganhou o Prêmio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades? A lista de premiados ao longo dos anos inclui nomes como Jürgen Habermas, Umberto Eco e Amos Oz, entre outros intelectuais de projeção internacional.
Sobre o que foi o discurso de Han? Ele usou a metáfora do “moscardo” de Sócrates para descrever seu papel de crítico social, e retomou temas centrais de sua obra: autoexploração digital, falta de controle sobre a inteligência artificial e erosão de virtudes democráticas.
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