
Byung-Chul Han é hoje um dos filósofos vivos mais lidos fora da academia. Tem quase 30 títulos publicados no Brasil, virou citação recorrente em redes sociais e discurso de autoajuda corporativa, e em outubro de 2025 recebeu o Prêmio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades — o mais alto reconhecimento que a Espanha concede a intelectuais. E, no entanto, quase nada do que se escreve sobre ele em portugês contesta o que ele diz. A cobertura brasileira é uniformemente reverente: resume a tese, credita o diagnóstico, e para por aí.
Fora do Brasil, não é bem assim. Han tem sido contestado — por filósofos, críticos culturais e comentaristas de esquerda — em publicações como a Los Angeles Review of Books, a Aeon, a e-flux e a taz alemã. As objeções não são unânimes nem convergem num só ponto, mas se acumulam o suficiente para valer a pena conhecê-las antes de tratar qualquer frase de Han como verdade estabelecida. É isso que este texto reúne: cinco críticas específicas, de autores específicos, com data e fonte — não um resumo genérico de “gente que não gosta dele”.
“Menos da metade do mundo tem internet” — a objeção de Adrian Nathan West
Em setembro de 2017, o escritor e tradutor Adrian Nathan West publicou na Los Angeles Review of Books uma das primeiras introduções críticas a Han em língua inglesa. O argumento central de West é que Han generaliza a partir de uma experiência muito específica — a de quem vive conectado, em tempo integral, num país rico — e a apresenta como diagnóstico universal da condição humana contemporânea.
West lembra que apenas um em cada quatro adultos no mundo trabalha em regime de tempo integral, e que menos da metade da população mundial tem acesso à internet. Descrever a humanidade como um bloco homogêneo de “sujeitos de desempenho” permanentemente diante de telas, argumenta ele, ignora bilhões de pessoas para quem esse retrato simplesmente não se aplica.
A segunda objeção de West é estilística: ele acusa Han de recorrer a frases gnômicas que soam profundas, mas resistem à verificação — cita como exemplo a linha de Agonia do Eros “a proximidade é negativa enquanto o distanciamento está inscrito nela”. Para West, esse tipo de formulação permite que o livro pareça dizer algo contundente sem de fato sustentar a afirmação com exemplos. Ele nota ainda uma “aversão frequentemente irritante a exemplos do mundo real”, especialmente em Topologia da Violência, onde Han discute violência de forma abstrata sem tratar de casos concretos.
O risco de reproduzir o que denuncia — Josh Cohen
Em fevereiro de 2025, o psicanalista e crítico cultural Josh Cohen publicou na Aeon um ensaio mais simpático a Han do que o de West, mas que chega a uma inquietação parecida por outro caminho. Cohen observa que Han tem o hábito de fazer afirmações totalizantes — do tipo “o tempo em que havia o Outro se foi” — que fecham a possibilidade de qualquer experiência que escape ao diagnóstico.
O exemplo que Cohen usa é a rejeição que Han faz da obra do artista Jeff Koons: ao contrário de Walter Benjamin ou Theodor Adorno, que analisavam objetos da cultura de massa com atenção às suas contradições internas, Han descarta Koons com o que Cohen chama de “sentença final”, sem reconhecer que até a arte mais lisa e positiva pode conter uma negatividade própria.
A conclusão de Cohen é a mais incômoda das cinco reunidas aqui: a “pura negatividade” com que Han descreve a sociedade contemporânea — sempre exausta, sempre transparente, sempre positiva demais — corre o risco de convergir com exatamente aquilo que ele denuncia. Um pensamento que só sabe dizer não, sem admitir jogo, contradição ou vitalidade, pode acabar replicando a mesma compulsão totalizante que atribui ao capitalismo tardio.
Zen como antídoto europeu — a acusação de orientalismo
A crítica mais recente do grupo é também a mais dura. Em fevereiro de 2026, o teórico cultural coreano Alex Taek-Gwang Lee publicou na plataforma e-flux um texto que acusa Han de reproduzir uma lógica orientalista ao tratar o budismo zen e outros conceitos do “Extremo Oriente” como antídoto filosófico para a crise do sujeito europeu.
Lee argumenta que Han sustenta uma divisão binária entre “Ocidente” e “Oriente” que trata cada bloco como homogêneo e atemporal — chegando a atribuir certos traços ao “caráter chinês” sem considerar as transformações históricas que atravessam essas tradições. Para Lee, “a história através da qual o budismo indiano se torna Chan chinês” — os séculos de tradução, adaptação e circulação que moldaram essas ideias — está praticamente ausente da análise de Han.
O ponto mais afiado da crítica de Lee é o que ele chama de risco de reorientalismo: mesmo criticando a metafísica europeia, Han não desconstrói a autoridade do Ocidente de definir o que é o “Outro” — ele apenas a refina, transformando o zen num antídoto elegante para a filosofia alemãA, o que acaba renovando a mesma dinâmica colonial em formato mais sofisticado. Lee propõe, como alternativa, uma abordagem genealógica atenta a trocas multidirecionais entre tradições, em vez de oposições binárias fixas.
“A sociedade da fadiga é surda” — Ingo Arend e o pessimismo sem saída
Uma das críticas mais antigas do grupo vem da própria Alemanha. Em janeiro de 2017, o crítico Ingo Arend publicou no jornal taz uma resenha do livro A Expulsão do Outro que questiona o método de Han por dentro — como alguém que lê o filósofo com atenção, mas discorda da forma como ele argumenta.
Arend chama a abordagem de Han de “retórica do elementar”: afirmações genéricas e grandiosas — como a de que “a sociedade da fadiga é surda” — apresentadas sem evidência empírica que as sustente. Para ele, esse pessimismo cultural passa por cima de conflitos reais e concretos — greves, desemprego, disputas em relacionamentos — que complicariam o quadro de resignação total que Han descreve.
Arend também aponta uma imprecisão conceitual no centro da obra: o “outro” de Han oscila entre um enigma quase místico e um encontro pessoal concreto, sem que o livro escolha uma definição e a sustente — o que o torna, na visão de Arend, menos rigoroso do que a tradição de pensadores da alteridade que o precede. E há uma contradição interna: Han propõe superar o neoliberalismo por meio de “virtudes culturais”, mas nunca chega a desenvolver uma filosofia da intersubjetividade que explique como isso aconteceria na prática.
A crítica marxista: falta a exploração material
A quinta crítica vem de um lugar diferente das outras quatro: não da crítica cultural anglo-germânica, mas da esquerda brasileira. Em outubro de 2024, Araçá Rivera — coordenadora do Centro Acadêmico de Letras da UFRN — publicou no Esquerda Diário um artigo que contesta Sociedade do Cansaço a partir de uma leitura marxista de classe.
O argumento de Rivera é que Han erra o diagnóstico ao tratar o esgotamento contemporâneo como fenômeno essencialmente psicológico — o sujeito que se autoexplora por excesso de positividade — e não como consequência de condições materiais de exploração que continuam muito concretas: precariedade, desemprego, jornadas exaustivas. Seguindo a leitura foucaultiana do “biopoder” difuso, Han afirma que o neoliberalismo não tem opressor visível, porque o explorado se tornou o próprio explorador de si mesmo. Rivera rejeita essa conclusão: para ela, o Estado capitalista continua sendo o instrumento concreto de dominação de classe, mesmo quando a ideologia o torna menos visível.
Para sustentar o argumento com dados brasileiros, Rivera cita um levantamento da USP segundo o qual cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros relatam sintomas de burnout, além de um estudo sobre entregadores de aplicativo em Campinas: a maioria trabalha todos os dias, um terço ultrapassa 70 horas semanais, e relatam privação de sono e alimentação irregular somadas a condições climáticas extremas. A conclusão política de Rivera também diverge de Han: onde ele considera a revolução impraticável dentro da lógica do desempenho, ela aponta crises contemporâneas como evidência de que a hegemonia do capitalismo é mais frágil do que Han sugere — e que apenas a organização coletiva, não a resistência individual, oferece saída real.
O que sobra depois da crítica
Nenhuma das cinco críticas reunidas aqui nega que Han tenha identificado ansiedades reais do presente — o esgotamento, a transparência excessiva, o desaparecimento do outro são descrições que ressoam porque tocam em algo verdadeiro da experiência contemporânea, e é exatamente por isso que um comitê como o do Prêmio Princesa de Astúrias reconheceu seu trabalho como contribuição relevante à comunicação e às humanidades. O problema, segundo seus contestadores, não é o que Han enxerga, mas o que ele deixa de fora ao transformar observação em sentença fechada.
Colocadas lado a lado, as cinco objeções convergem em um padrão: falta de base empírica que sustente afirmações apresentadas como diagnóstico universal (West, Arend); um estilo que prefere a frase definitiva à análise que admite exceção ou contradição (Cohen, Arend); e um apagamento — seja da história das tradições que Han usa como recurso filosófico (Lee), seja da dimensão material e de classe da exploração que ele descreve (Rivera). Nenhuma dessas críticas exige abandonar a leitura de Han. Exige lê-lo ao lado de quem discorda dele — o que a cobertura brasileira, até aqui, raramente ofereceu.
Leia também
Para quem quer se situar na obra de Han antes de mergulhar nas críticas: o guia completo com todos os livros do autor em português, o guia de por onde começar a ler Byung-Chul Han, o perfil quem é Byung-Chul Han e a resenha de Sociedade do Cansaço, o livro mais visado pela crítica de Rivera.
Sobre episódios relacionados: a polêmica de Han com Agamben e Žižek durante a pandemia, o discurso de Han ao receber o Prêmio Princesa de Astúrias e a explicação do próprio autor sobre por que seus livros são tão curtos — tema que aparece direta ou indiretamente em várias das críticas acima.
Perguntas frequentes
As críticas invalidam a leitura de Byung-Chul Han? Não. Nenhum dos cinco autores reunidos aqui propõe descartar Han — eles discordam de pontos específicos (base empírica, método, uso de tradições asiáticas, ausência da dimensão de classe), o que é diferente de negar que ele tenha algo a dizer.
Existe crítica de esquerda a Byung-Chul Han? Sim. A mais direta em portugês é a de Araçá Rivera, publicada no Esquerda Diário em outubro de 2024, que contesta Sociedade do Cansaço a partir de uma leitura marxista sobre exploração material e de classe.
Byung-Chul Han já respondeu a essas críticas? Não há registro público de resposta direta a nenhuma delas. Han é conhecido por evitar entrevistas e debates públicos — um comportamento discutido no perfil biográfico do autor no site.
Onde posso ler essas críticas na íntegra? Os textos de Adrian Nathan West, Josh Cohen e Alex Taek-Gwang Lee estão disponíveis em inglês na Los Angeles Review of Books, na Aeon e na e-flux, respectivamente. O de Ingo Arend está em alemão no jornal taz. Nenhum deles tem, até o momento, tradução oficial para o português.
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