
Em março de 2020, com o mundo todo em quarentena, três dos filósofos mais lidos do planeta publicaram, em poucos dias de diferença, ensaios contraditórios sobre o que a pandemia significava. Giorgio Agamben chamou as medidas de contenção de exagero autoritário. Slavoj Žižek apostou que o vírus poderia ser o golpe fatal no capitalismo. Byung-Chul Han discordou dos dois. O debate não ficou em redes sociais: foi reunido, junto com outros catorze pensadores, num livro de acesso livre que circulou o mundo em semanas.
Cinco anos depois, vale reconstruir exatamente o que cada um disse — porque a disputa continua sendo a entrada mais direta ao pensamento político de Han, e porque nenhum dos três saiu ileso do teste do tempo.
Agamben abre a polêmica: “a invenção de uma epidemia”
O primeiro a se manifestar foi o italiano Giorgio Agamben, ainda em fevereiro de 2020, antes mesmo de a Europa decretar lockdowns em massa. Ele descreveu a resposta institucional à Covid-19 como desproporcional ao risco real, e a enquadrou dentro de sua teoria de longa data sobre o “estado de exceção”: governos usando uma emergência sanitária para naturalizar medidas de vigilância e restrição de liberdades que, em circunstâncias normais, seriam inaceitáveis. O texto — que ficaria conhecido pelo título “A invenção de uma epidemia” — provocou reação imediata e hostil de cientistas, médicos e outros filósofos, justamente quando os números de contágio começavam a disparar na Itália.
Žižek aposta na ruptura: “um golpe letal no capitalismo”
O esloveno Slavoj Žižek foi na direção oposta. Para ele, a pandemia expunha com uma clareza rara os limites do capitalismo global — cadeias de suprimentos frágeis, sistemas de saúde sucateados por décadas de corte de gastos, fronteiras que se revelavam inúteis diante de um vírus. Žižek defendeu que a crise abria uma janela real para formas de coordenação internacional e solidariedade que rompessem com a lógica de mercado — uma espécie de “comunismo de guerra” sanitário, que ele desenvolveria poucos meses depois no livro Pandemia. Não era uma previsão cautelosa: era uma aposta política declarada.
Han refuta os dois: “o vírus não vencerá o capitalismo”
Han respondeu a Žižek diretamente, em entrevista publicada em 24 de março de 2020: “o vírus não vencerá o capitalismo”. Para ele, a ideia de que uma crise sanitária produziria, por si só, uma ruptura política era uma fantasia — sistemas se adaptam a choques externos, e o capitalismo já vinha demonstrando essa capacidade de absorção havia décadas. Mudança real, segundo Han, dependeria de pessoas dotadas de razão decidindo agir, não de um vírus fazendo o trabalho por elas.
Poucos dias depois, em 28 de março, Han publicou o ensaio mais citado do trio: “A emergência viral e o mundo de amanhã”. Nele, compara o sucesso relativo de países asiáticos no controle da pandemia — apoiado em vigilância digital massiva, como o rastreamento de contatos por aplicativo na Coreia do Sul e o reconhecimento facial na China — ao fracasso de uma Europa que, para Han, reagiu tarde e mal, fechando fronteiras de forma pouco eficaz enquanto demorava a distribuir máscaras. A leitura de Han não é elogio ingênuo ao modelo asiático: é um alerta de que a vigilância digital testada ali como resposta emergencial tendia a ficar — não como ameaça hipotética, mas como infraestrutura já instalada.
“Sopa de Wuhan”: os três num só volume
Os textos de Agamben, Žižek e Han — junto com contribuições de Judith Butler, Alain Badiou, Paul B. Preciado, David Harvey, Franco “Bifo” Berardi e outros seis pensadores — foram reunidos pela editora argentina ASPO no livro digital gratuito Sopa de Wuhan: Pensamento Contemporâneo em Tempos de Pandemia (2020, 288 páginas), organizado por Pablo Amadeo. O volume circulou como PDF livre pela América Latina e depois pelo mundo, tornando-se um dos registros mais completos de como a filosofia contemporânea tentou, em tempo real e sem o distanciamento costumeiro da academia, entender o que estava acontecendo.
Quem acertou?
Nenhum dos três saiu com a razão inteira. A ruptura revolucionária que Žižek imaginou não aconteceu — o capitalismo global não apenas resistiu à pandemia como, em muitos setores, saiu dela mais concentrado. A vigilância digital que Han via com desconfiança na Ásia normalizou-se muito além dali: passaportes sanitários digitais, aplicativos de rastreamento e infraestrutura de controle se espalharam por praticamente todos os continentes, inclusive onde ele apontava resistência cultural. E a crítica de Agamben ao estado de exceção, tão hostilizada em 2020, voltou a ser citada anos depois em debates sobre quais poderes emergenciais os governos mantiveram mesmo após o fim oficial da pandemia. Cada um dos três via um fragmento real do que estava por vir — nenhum viu o quadro inteiro. É exatamente esse tipo de teste, com data e ensaio publicado, que falta na maior parte do que se escreve sobre esses autores hoje.
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Para aprofundar: o guia completo da obra de Byung-Chul Han, o perfil quem é Byung-Chul Han e as críticas internacionais ao filósofo, que reúne outras cinco objeções a seu pensamento.
Perguntas frequentes
Han, Agamben e Žižek discutiram pessoalmente? Não há registro de debate direto entre os três. A polêmica se deu por meio de ensaios publicados separadamente em veículos diferentes, depois reunidos no mesmo livro.
O que é o livro “Sopa de Wuhan”? Uma coletânea digital gratuita organizada pela editora argentina ASPO em 2020, com ensaios de 15 pensadores — incluindo Han, Agamben e Žižek — sobre os significados filosóficos e políticos da pandemia de Covid-19.
Byung-Chul Han concorda com Agamben sobre o “estado de exceção”? Parcialmente. Han também alerta contra o excesso de vigilância digital, mas discorda do enquadramento de Agamben, que minimizava a gravidade sanitária da pandemia — o foco de Han está na infraestrutura de controle que sobrevive à crise, não em negar a crise em si.
Qual ensaio de Han é mais citado sobre a pandemia? “A emergência viral e o mundo de amanhã”, publicado originalmente em espanhol em 22 de março de 2020 e reproduzido por veículos de vários países.
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