
O Brasil se despede de uma de suas artistas mais autênticas e corajosas: Preta Gil, que faleceu aos 50 anos, após uma longa e transparente luta contra o câncer no intestino.
Mais do que filha de Gilberto Gil, ela foi filha da cultura brasileira contemporânea — uma mulher que ressignificou o que é ser artista, empresária, militante e sobrevivente. Do palco ao hospital, do microfone ao ativismo, Preta nos ensinou que viver é um ato de resistência e amor.
Preta Maria Gadelha Gil Moreira, para nós simplesmente Preta Gil, faleceu aos 50 anos no dia 20 de julho de 2025 em Nova York, após dois anos de luta contra o câncer colorretal. Mais do que sua vasta carreira, ela deixa um legado de coragem, representatividade e poder de transformação social.

Uma voz que não cabia em estereótipos
Preta Gil começou a trilhar sua carreira musical no início dos anos 2000, enfrentando, desde o princípio, as críticas do racismo estrutural e da gordofobia.
Seu álbum de estreia, Prêt-à-Porter (2003), já deixava claro a que veio: sem medo de expor o corpo, a opinião ou as emoções. A capa do disco, em que posava nua, gerou polêmica — e abriu portas para uma discussão urgente sobre padrões de beleza, empoderamento e liberdade feminina.
Ao longo dos anos, Preta transitou por diversos gêneros musicais: do pop ao samba, da MPB ao axé. Criou o fenômeno do Bloco da Preta, que arrastava multidões pelas ruas do Rio de Janeiro no carnaval, e lançou canções marcantes como “Sinais de Fogo”, “Stereo” e “Sou Como Sou”, reafirmando sua identidade.
Uma artista de múltiplas telas
Na televisão, Preta também foi presença marcante. Participou de novelas, apresentou programas como o Esquenta! e integrou o time do The Voice Brasil.
Suas aparições sempre foram carregadas de verdade, carisma e posicionamento — marcas registradas de sua trajetória. Ela era capaz de falar sobre racismo, homofobia e empoderamento com o mesmo brilho com que puxava um trio elétrico.
Empreendedora e gestora da própria imagem
Preta não esperou o mercado aceitá-la: criou seu próprio espaço. Em 2017, fundou a agência Music2Mynd, voltada à gestão de carreiras de artistas e influenciadores digitais.
Representando nomes diversos e promovendo campanhas para grandes marcas, ela provou que negócios e inclusão podem andar juntos.
Suas estratégias de marketing sempre estiveram alinhadas a causas sociais, fazendo de sua imagem pública uma poderosa ferramenta de transformação.

A batalha contra o câncer: coragem, visibilidade e humanização
Em janeiro de 2023, Preta anunciou o diagnóstico de um câncer no intestino. Mais do que uma notícia pessoal, transformou o tratamento em uma jornada coletiva.
Compartilhou cada etapa nas redes sociais: exames, quimioterapia, cirurgia, uso de bolsa de ileostomia, efeitos colaterais. Com isso, humanizou a doença e deu voz a milhares de pessoas que passam por situações semelhantes.
Mesmo quando o câncer voltou em 2024, ela não recuou. Seguiu em tratamento no Brasil e nos Estados Unidos, sempre com transparência e amor-próprio. Até seus últimos dias, manteve a conexão com fãs e amigos — inspirando não só pela arte, mas pela vida.
Um legado que ecoa
Preta Gil foi muito além da fama. Foi símbolo de luta antirracista, da visibilidade LGBTQIAPN+, da democratização dos corpos e da autoaceitação.
Ao declarar-se bissexual, incentivou o debate sobre sexualidade e enfrentou o conservadorismo com a mesma força que enfrentava os holofotes.
Seu legado está nas ruas, nos trios elétricos, nos palcos, nas redes sociais, nas entrevistas que dava com o coração escancarado, e no exemplo que deixa: viver com intensidade, ser verdadeiro com sua história e transformar dor em potência.
Preta Gil foi muito mais que uma artista: foi uma voz potente contra o preconceito, uma empresária visionária e uma mulher que habitou sua verdade até o fim. Sua jornada inspira cuidado com nossa saúde, respeito à pluralidade, e a coragem de assumir nossas verdades.
Que esta despedida nos convide a refletir: como podemos canalizar arte e ativismo em nossas próprias esferas? E, acima de tudo, como podemos cuidar de quem amamos e de nós mesmos?
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