
“O Avesso da Pele” é narrado por Pedro, que reconstrói a vida do pai, Henrique, morto em uma abordagem policial. Não é um livro sobre o crime em si — é um livro sobre o que resta depois: a memória fragmentada, as perguntas sem resposta, a tentativa de compreender quem foi aquele homem através daquilo que ficou.
Publicado em 2020 pela Companhia das Letras, “O Avesso da Pele” ganhou o Prêmio Jabuti em 2021 na categoria Romance Literário — e esse reconhecimento não era apenas uma validação de qualidade. Era também confirmação de que a literatura brasileira de grande circulação estava disposta a acolher narrativas que tratam de violência policial contra pessoas negras sem transformá-la em estatística ou em manchete.
Uma estrutura narrativa pouco comum
O que impressiona em “O Avesso da Pele” é a escolha formal de Tenório: a narrativa alterna entre primeira e segunda pessoa, criando um efeito de proximidade e distância simultâneas — Pedro fala de si, mas também se dirige a si mesmo, ou ao pai, como quem tenta reconstruir uma conversa que nunca pôde acontecer por completo.
Outra camada importante é o uso da mitologia iorubá: Tenório atribui orixás aos personagens conforme suas características, ampliando o alcance simbólico da história sem abandonar o realismo cru da violência que a origina. É recurso raro em ficção brasileira de grande circulação, e funciona como forma de inserir ancestralidade e cosmovisão africana dentro de uma narrativa contemporânea sobre luto e racismo.
Pedro e Henrique
Não vou contar em detalhe o que Pedro descobre sobre o pai ao longo do livro — parte do poder de “O Avesso da Pele” está em acompanhar essa reconstrução junto com o narrador. O que posso dizer é que Henrique não é apresentado como vítima unidimensional nem como herói. É um homem completo, com contradições, silêncios e afetos que o filho precisa recompor a partir de fragmentos.
A relação entre pai e filho — mesmo com o pai já morto quando a narrativa começa — é o coração do livro.
Por que este livro importa
“O Avesso da Pele” importa porque trata de um tema urgente — a violência policial contra homens negros no Brasil — através de ficção literária densa, e não de reportagem ou denúncia direta. Tenório não escreve para agradar nem para consolar. Escreve para que o leitor habite, por algumas horas, a experiência de perder alguém para essa violência e precisar seguir vivendo com essa ausência.
O livro rendeu ao autor, além do Jabuti, uma indicação ao Prêmio Oceanos em 2021, e desde 2024 integra a lista de leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS.
Conclusão: Recomendação clara
Se você quer conhecer o romance vencedor do Jabuti que trouxe violência policial e ancestralidade iorubá para a mesma narrativa, “O Avesso da Pele” é leitura essencial. Prepare-se para uma estrutura que exige atenção e para um livro que permanece com você muito depois de virar a última página.
Perguntas Frequentes
Quem é o narrador de “O Avesso da Pele”?
Pedro, que reconstrói a vida do pai, Henrique, morto em uma abordagem policial.
O livro usa alguma referência religiosa ou mitológica?
Sim. Tenório incorpora a mitologia iorubá, atribuindo orixás aos personagens conforme suas características.
Qual é o gênero do livro?
Romance. Prosa literária contemporânea, com técnica narrativa em primeira e segunda pessoa.
O livro foi traduzido para outros idiomas?
Sim. Seus direitos foram vendidos para países como Portugal, Itália, Inglaterra, França, Suécia, China, Bélgica e Estados Unidos.
Onde comprar?
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Fontes: Companhia das Letras · Wikipédia
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