
Todo leitor chega a um romance sobre morte e luto esperando encontrar, em algum canto da trama, um culpado com nome e rosto. Em “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, essa expectativa é frustrada de propósito — e é justamente nessa recusa que o livro constrói um dos seus argumentos mais fortes.
Não existe, em “O Avesso da Pele”, um vilão tradicional. Não há um antagonista nomeado que o leitor possa odiar e depois esquecer. O que existe é algo mais difícil de processar: uma estrutura.
A morte sem rosto que organiza o livro
O romance é narrado por Pedro, que reconstrói a vida do pai, Henrique, morto durante uma abordagem policial. Tenório nunca transforma esse episódio em cena de ação, em confronto dramático com um policial identificado, em uma figura que o leitor possa apontar como “o vilão da história”.
A abordagem policial que mata Henrique funciona como evento, não como personagem. O que Tenório está dizendo, na escolha de não nomear nem individualizar essa violência, é que ela não depende de um mau indivíduo isolado — ela é sistêmica, repetível, estrutural. O verdadeiro antagonista de “O Avesso da Pele” é a violência policial contra homens negros como fenômeno social, não como ato de uma pessoa má específica.
Henrique: pai, mas não herói
Se não há vilão nomeado, também não há herói fácil. Henrique, o pai de Pedro, é reconstruído ao longo do livro através de memórias fragmentadas — e o retrato que emerge é o de um homem completo, não de uma vítima idealizada.
Segundo relatos de leitura sobre o livro, o casamento de Henrique com Martha, mãe de Pedro, é marcado por ciúmes, inseguranças profundas e incompatibilidades — um dos pontos altos da obra é justamente a forma como Tenório recusa romantizar essa relação. Henrique amava o filho e tinha convicções sobre afeto e cuidado emocional, mas não é apresentado como santo nem como símbolo. É um homem com contradições que o próprio filho precisa reconciliar depois que ele já não pode mais explicar-se.
Essa é a definição mais precisa de anti-herói que “O Avesso da Pele” oferece: alguém cuja humanidade completa — falhas incluídas — é o que o texto insiste em preservar, mesmo diante da tentação de transformá-lo em símbolo de injustiça.
Pedro: o narrador que também não é herói
Pedro tampouco ocupa o lugar do herói clássico. Ele não busca vingança, não investiga um crime, não enfrenta um sistema em nome de justiça. Sua jornada é interior: reconstruir, através de memória fragmentada, quem foi seu pai — e, no processo, entender quem ele próprio é.
A narrativa alterna entre primeira e segunda pessoa, um recurso que reforça essa ambiguidade: Pedro fala de si, mas também parece se dirigir a si mesmo ou ao pai, como quem tenta reconstituir uma conversa interrompida. Não é um personagem de ação. É um personagem de processamento — o que o aproxima mais da tradição do anti-herói contemporâneo do que do protagonista tradicional.
Orixás como camada simbólica, não como julgamento moral
Outro elemento que afasta “O Avesso da Pele” da lógica de mocinho contra vilão é o uso da mitologia iorubá. Tenório atribui orixás aos personagens conforme suas características — um recurso que amplia a leitura simbólica da obra sem funcionar como veredicto moral sobre quem é “bom” ou “mau”.
Essa escolha reforça o projeto central do livro: entender pessoas como sistemas complexos de contradição, ancestralidade e circunstância — não como peças de um tabuleiro moral simples.
Por que essa ausência de vilão importa
Livros que tratam de violência policial contra pessoas negras correm o risco de virar denúncia panfletária ou, no extremo oposto, tragédia individualizada que dispensa o leitor de pensar em estrutura. Tenório evita as duas armadilhas.
Ao recusar um vilão nomeado, “O Avesso da Pele” empurra o leitor para um desconforto mais produtivo: não há ninguém específico para culpar e depois esquecer. A pergunta que o livro deixa em aberto não é “quem fez isso com Henrique”, mas “que sistema torna essa morte possível, repetível, quase esperada”.
Perguntas Frequentes
“O Avesso da Pele” tem um vilão?
Não um vilão nomeado. O antagonista é a violência policial estrutural, apresentada como fenômeno social recorrente, não como ato de um indivíduo específico.
Henrique é um herói?
Não no sentido clássico. É um pai amoroso, mas também um homem com contradições — ciúmes, inseguranças, um casamento marcado por dificuldades — o que o torna um personagem mais próximo do anti-herói do que do herói idealizado.
Pedro busca vingança ou justiça no livro?
Não. A jornada de Pedro é de reconstrução interior e memória, não de investigação ou confronto direto com quem matou o pai.
Os orixás atribuídos aos personagens indicam quem é “bom” ou “mau”?
Não. A mitologia iorubá funciona como camada simbólica que amplia a complexidade dos personagens, não como julgamento moral.
Esse é um estilo comum na literatura de Tenório?
Em “De Onde Eles Vêm”, Tenório também evita antagonistas individuais nomeados, preferindo tratar o racismo institucional dentro do sistema de cotas raciais como força estrutural que os personagens precisam navegar.
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