
Em pleno século XXI, a censura literária volta a ganhar força em vários cantos do mundo — inclusive nos Estados Unidos o país da liberdade. Só no último ano letivo, mais de 4.000 livros foram banidos ou removidos de escolas e bibliotecas públicas no país. Títulos consagrados como Me Chame Pelo Seu Nome, As Vantagens de Ser Invisível, O Conto da Aia e até a Bíblia foram alvos de campanhas para restringir o acesso de jovens leitores.
Mas o que está realmente por trás desse movimento? Quem pressiona para que livros desapareçam das prateleiras? E por que, agora, tantos pais, ativistas e autoridades se preocupam com o que os estudantes podem (ou não) ler?
Em estados conservadores como Flórida, Iowa e Texas, pais, professores e grupos ativistas têm se organizado para revisar — e muitas vezes retirar — livros de acervos escolares. O argumento mais comum? Proteger crianças de conteúdos considerados inapropriados, especialmente com teor sexual ou discussões sobre identidade de gênero.
A ONG PEN America, que monitora essas restrições, aponta que 36% dos livros banidos em 2023–24 tinham protagonistas ou autores negros, 25% eram relacionados a pessoas LGBTQIA+ e apenas 13% continham descrições explícitas de sexo.

E ainda, segundo a PEN, houve mais de 10 mil casos de proibição de livros entre 2023 e 2024, a maioria deles em estados governados pelo Partido Republicano, de Donald Trump, onde a censura vem sendo imposta por meio de legislação.
Das últimas 4.218 obras proibidas, 36% têm personagens não brancos, como a premiada peça “Fences”, de August Wilson (que inspirou o filme “Um limite entre nós”, com Denzel Washington e Viola Davis), e “A is for activist” (A de ativista), de Innosanto Nagara, livro infantil que aborda questões sociais. Entre as biografias censuradas, 44% são de pessoas não brancas (26% delas negras).
Clássicos e best-sellers na mira
Entre os livros mais banidos estão:
- O Conto da Aia (Margaret Atwood): um clássico distópico que descreve estupros sistemáticos em um regime autoritário — cenas que motivaram denúncias de conteúdo sexual explícito.
- Gênero Queer (Maia Kobabe): uma graphic novel premiada que virou símbolo da controvérsia, acusada de pornografia por mostrar cenas sexuais, ainda que estilizadas e reflexivas.
- A Cor Púrpura (Alice Walker) e O Ódio Que Você Semeia (Angie Thomas): ambos abordam racismo estrutural e foram criticados por supostamente estimular ódio racial ou trazer linguagem imprópria.
- Me Chame Pelo Seu Nome (André Aciman): romance sobre um relacionamento gay, banido por conteúdo sexual.
Até mesmo a Bíblia foi alvo de remoções em algumas bibliotecas escolares por conter descrições de violência e sexo, sendo usada como contra-argumento irônico por grupos pró-livro para questionar critérios de censura.
Argumentos e contranarrativas
Quem defende as proibições costuma afirmar que certos livros são “pornográficos” ou “inadequados para menores”. Uma mãe entrevistada pela rede de televisão alemã DW, justificou assim:
“Esses livros são pornográficos. Não há dúvida sobre isso. Eu tenho um bisneto aluno do ensino fundamental. Sei que a mãe dele verifica os aplicativos, mas ela não tem a oportunidade de ver o que está na biblioteca.”
Por outro lado, autores e educadores rebatem que adolescentes já enfrentam temas como sexualidade, saúde mental, violência e dependência química em suas vidas — e que livros podem ser aliados para reflexão crítica e segurança emocional.
A autora Ellen Hopkins, cujas obras estão entre as mais banidas nos EUA, disse:
“Eu sempre digo: você não arma crianças com ignorância. Arma com conhecimento. Escrevo sobre temas contemporâneos porque nem todas as crianças têm uma vida bonita. Todas merecem se ver representadas num livro.”
O poder simbólico e histórico de queimar ou censurar livros
A prática de banir livros não é nova. Desde a invenção da imprensa em 1450, autoridades religiosas e políticas tentaram controlar o que circulava. A Igreja Católica, por exemplo, criou o Index Librorum Prohibitorum em 1559, banindo traduções da Bíblia de Lutero e obras de filósofos e cientistas.
No século XX, regimes totalitários também recorreram a fogueiras: os nazistas queimaram mais de 20.000 livros de judeus, comunistas e críticos do regime em 1933. Essas ações buscavam não apenas controlar ideias, mas enviar um recado de poder simbólico à sociedade.

O cenário atual dos Estado Unidos
O aumento da censura a livros nos Estados Unidos ocorre em um cenário de repressão por parte do governo a políticas de diversidade, equidade e inclusão em instituições públicas de ensino.
Nas últimas semanas, segundo o Jornal O Globo, o presidente Donald Trump ameaçou suspender o financiamento federal de escolas que se recusarem a eliminar ações voltadas à diversidade, como programas de inclusão e bolsas destinadas a grupos minoritários.
A polêmica não se limita aos conservadores. Recentemente, editoras e movimentos progressistas também passaram a revisar conteúdos clássicos. Livros infantis de Roald Dahl tiveram linguagem alterada para remover termos considerados ofensivos como “gordo” ou “feio”. As Aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain, há décadas polêmico por seu uso de linguagem racial, também enfrenta remoções e edições.
O que não podems nunca esquecer é que os livros não são apenas histórias impressas — são veículos de ideias, identidades e debates sociais. Por isso mesmo, são frequentemente alvos de tentativas de controle. Em meio a discussões cada vez mais polarizadas, talvez a melhor pergunta não seja quais livros devemos banir, mas como ensinar os jovens a lê-los de forma crítica.
Enquanto isso, a questão central permanece: quem define o que uma criança ou adolescente deve ou não ler? Onde começa a linha entre proteção, censura e liberdade intelectual?
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