Localizado no coração de São Paulo e com mais de 45 mil metros quadrados, o Vale do Anhangabaú há mais de 130 anos vem sendo cartão postal da cidade, e também alvo de reformas e disputas sobre o uso do espaço público.

A primeira grande transformação aconteceu em 1910, quando, de chácara privada, o local virou parque público, sob os moldes da arquitetura parisiense que era moda época. Décadas depois, deu lugar a uma via expressa, na década de 50 e destruída na década de 1990, quando a cidade ganhou o parque de volta.

Agora, um novo projeto que promete revitalizar a região foi apresentado pela prefeitura. Com uma larga esplanada de concreto que conta com 850 jatos de água, a obra custou quase 100 milhões aos cofres públicos, mas foi pouco discutida com a sociedade.

Para a urbanista Danielle Klintowitz, coordenadora do Instituto Pólis, o projeto não é um exemplo de respeito ao direito da cidade.

A revitalização traz consigo, na própria palavra, uma ideia de que aquele lugar não tem vida, de que tenho que reviver aquele lugar. Desvaloriza o tipo de apropriação e de vida que tem e propõe a ideia de revitalização. Dizendo que a gente precisa trazer uma nova vida, o que significa trazer novos usuários, diferentes daqueles que estão no lugar.” afirma a urbanista.

Ela também lembra, em um local com diversas demandas, a reforma que preza por objetivos majoritariamente estéticos, talvez não fosse prioridade para a população.

A região do Vale do Anhangabaú tem uma vivência muito específica né? A gente tem muitos moradores em situação de rua, a gente tem muitas ocupações de edifícios vazios, que estão ali no entorno. Então, um projeto que vai tratar de um espaço tão importante na área central ele não pode ignorar essa questão. Ele não pode de forma alguma ser um processo que vai tratar o espaço só de forma estética. Ele tem que tratar a função social daquele espaço né?” conclui Klintowitz

Atualmente São Paulo possui mais de 25 mil pessoas em situação de rua, conforme censo realizado pela prefeitura no início do ano. Grande parte delas estão na região central. Para Edilson Mineiro, assessor jurídico da União Nacional por Moradia Popular e integrante do Conselho Municipal de Política Urbana, seria prioritário o projeto ter escutado as populações locais e pensando nas demandas de moradia da região.

“Na cidade de São Paulo, existem mais ou menos 400 mil famílias que não possuem moradia. E o centro tem centenas de prédios que estão vazios. Quando você faz esse tipo de obra, deveria pensar nisso. Além disso, esse tipo obra, a tendência é fazer o que a gente chama de higienização. Ou seja, expulsar a população dessas áreas por conta da valorização que vem junto com uma obra dessa. A tendência é essa, é um espaço de embelezamento, bom para os negócios, mas péssimo para as pessoas.” relata Mineiro

A participação da iniciativa privada aparece no projeto desde seu início, quando foi financiada pelo banco Itaú, ainda em 2013, na gestão de Fernando Haddad. Agora, um edital prevê a concessão por 10 anos a empresas, que poderão sublocar pontos comerciais e realizar até seis eventos de acesso restrito por mês.

Para Nabil Bonduki esse tipo de medida significa na prática uma forma de privatização do parque.

“Isso faz parte toda uma estratégia da atual gestão de conceber os espaços públicos para o setor privado.

E o setor privado quando entra numa licitação ele entra com objetivo de lucro, de ter rentabilidade. Ele não entra para fazer filantropia. Ele entra como objetivo de lucro. Então ele vai extrair recursos daquele lugar. Isso é inadmissível.

Nós não podemos pegar o coração da cidade, que é público desde sempre e falar assim, agora uma parte desse tempo isso vai ser fechado e vai ter acesso restrito. É inadmissível Não podemos aceitar isso.”

Via: Brasil De Fato
Por: Vanessa Nicolav
Edição: Rodrigo Durão Coelho
Imagens: Reprodução/Divulgação

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