DESTAQUES TEATRO

Benjamim, O Palhaço Negro: o musica devolve ao palco o pioneiro que o Brasil escolheu esquecer

Espetáculo idealizado por Isaac Belfort a partir de uma pesquisa escolar iniciada em 2018 cumpre temporada paulistana no Espaço Cia. da Revista, às terças-feiras, até 15 de setembro — e transforma a biografia do primeiro palhaço negro do país em um exercício vivo sobre memória, identidade e permanência

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Benjamim, O Palhaço Negro: o musica devolve ao palco o pioneiro que o Brasil escolheu esquecer
Musical “Benjamim – O Palhaço Negro” em cartaz no Espaço Cia. Da Revista em São Paulo. Imagem: Divulgação | Edição: Hub Cansei De Ser Pop.

Há uma ironia difícil de engolir na história do teatro brasileiro: o homem que inventou o circo-teatro, formato que sustentou a dramaturgia popular do país por mais de meio século, é também um dos artistas mais ausentes dos currículos, das antologias e da memória coletiva. Benjamim de Oliveira nasceu em 1870, em Pará de Minas (MG), filho de Leandra de Jesus, mulher escravizada, e de Malaquias Chaves, capataz da mesma fazenda.

Fugiu de casa aos 12 anos com um circo itinerante, aprendeu acrobacia e trapézio, virou palhaço aos 20 e, no Circo Spinelli do Rio de Janeiro, fez o gesto que reorganizaria a cena nacional: cruzou a técnica circense com a dramaturgia teatral e criou um formato que não existia antes dele.

Foi ator, palhaço, compositor, diretor e empresário. Gravou discos entre 1907 e 1912, colaborou com Catulo da Paixão Cearense e protagonizou, em 1908, uma versão circense de Os Guaranis que chegou a ser filmada. Morreu em 1954, no Rio de Janeiro, dependendo de uma pensão do governo.

É essa distância entre a dimensão do legado e o tamanho do apagamento que “Benjamim – O Palhaço Negro” decidiu encarar, e é ela que sustenta a temporada em cartaz no Espaço Cia. da Revista, em São Paulo, com sessões às terças-feiras, às 20h30, até 15 de setembro.

De trabalho escolar a compromisso artístico

A origem do espetáculo é quase literária. No fim de 2018, ainda no ensino médio, Isaac Belfort recebeu a sugestão de pesquisar Benjamim de Oliveira para um trabalho de escola.

O que deveria terminar em uma nota rapidamente se tornou outra coisa: uma investigação que atravessaria sete anos e redefiniria o rumo profissional do estudante.

“Quanto mais eu estudava, mais entendia a dimensão de Benjamim e o quanto ele havia sido apagado da nossa memória. Contar essa história deixou de ser apenas uma ideia de espetáculo e passou a ser um compromisso artístico”, afirma Belfort, que idealiza, assina a direção de produção e integra o elenco.

O detalhe relevante e, que diferencia a montagem de tantos musicais biográficos é que a pesquisa nunca foi encerrada. “Benjamim” não é uma obra fechada em turnê: é um espetáculo que se reescreve a cada temporada, incorporando novos achados históricos, novas leituras e as próprias experiências do elenco.

Trata-se, na prática, de um musical em estado de rascunho permanente, o que é menos uma fragilidade do que uma escolha estética coerente com o objeto que investiga.

Uma dramaturgia construída no plural

Embora tenha partido de uma ideia individual, o espetáculo foi assumindo autoria coletiva ao longo do processo. A direção geral e a dramaturgia são de Tauã Delmiro; a direção artística e residente, de Manu Hashimoto.

O texto, porém, aparece creditado a oito nomes: Isaac Belfort, Sara Chaves, Marcelo Vittória, Peter, Layla Santos, Elis Loureiro, Igor Barros e Manu Hashimoto, resultado de improvisações, pesquisas e vivências pessoais que foram sendo integradas à cena.

“Em determinado momento, o espetáculo deixou de ser só meu. Ele passou a ser de todos que decidiram contar essa história comigo”, resume o idealizador.

Esse método explica a forma final da obra. Em vez da linearidade expositiva típica da biografia musicada — nasceu, lutou, venceu, morreu —, “Benjamim” opera por espelhamento: as barreiras que o palhaço mineiro enfrentou no início do século XX conversam diretamente com o que jovens artistas negros ainda encontram nos palcos brasileiros do século XXI. O passado não é cenário; é argumento.

Por que isso importa

Vale um registro de contexto: musicais biográficos brasileiros costumam operar em um circuito de segurança — grandes nomes já canonizados, catálogos musicais consagrados, apelo imediato de bilheteria. Apostar em uma figura que o público majoritariamente desconhece é assumir um risco comercial evidente. E é justamente aí que a montagem encontra sua função pública: ela não celebra uma memória preservada, ela constrói a memória que não foi preservada. São operações distintas, e a segunda é bem mais difícil.

O espetáculo também recusa o tom exclusivamente solene que esse tipo de reparação histórica costuma acionar. Há humor, há crítica social e há emoção convivendo na mesma cena — o que faz sentido tratando-se de um artista cuja matéria-prima era a comicidade e cuja biografia é frequentemente resumida na imagem de quem transformou vaias em aplausos.

Da estreia no Rio às indicações ao DID

“Benjamim – O Palhaço Negro” estreou em 2022, no Teatro Cesgranrio, no Rio de Janeiro, e desde então passou por teatros, festivais e cidades brasileiras — incluindo Pará de Minas (MG), terra natal do homenageado, um retorno simbólico que poucas montagens conseguem realizar. Em 2025, o musical recebeu duas indicações ao Prêmio Destaque Imprensa Digital (DID), nas categorias Destaque Letra Original e Musical Destaque – Voto Popular, o que o posiciona entre as produções autorais mais relevantes da nova geração do teatro musical brasileiro.

A temporada paulistana chega com novidades: a encenação foi revista e os figurinos são novos, assinados por Ellias Kaleb especialmente para esta fase da montagem.

Foto promocional do espetáculo 'Benjamim, o Palhaço Negro', reunindo cinco artistas negros maquiados e sorridentes dentro de um círculo com fundo de raios em verde-água.
Musical sobre Benjamim de Oliveira, primeiro palhaço negro do Brasil, fica em cartaz em São Paulo até 15 de setembro. Veja elenco, ingressos e horários. Imagem: Divulgação

Elenco e equipe criativa

Em cena estão Sara Chaves, Isaac Belfort, Lakís Farias, Douglas Motta e João Cortins, com participação especial da atriz Mafê Alcântara, que se junta ao grupo nesta temporada.

A equipe criativa reúne direção musical de Thalyson Rodrigues, supervisão musical e coarranjos vocais de Eddyell Brandão — vencedora do Grammy Latino —, trilha original de James Lau, direção de movimento e coreografias de Marcelo Vittória, cenografia de Jovanna Souza, pintura de arte de Alex Carvalho, desenho de luz de JP Meirelles e desenho de som de Breno Lobo e Gabriel D’Ângelo. As letras e músicas são assinadas por Tauã Delmiro, Nakiska Muniz e Peter. A realização é da Belfort Produtora, com coprodução da Parasol Storytelling.

Um legado só desaparece quando deixa de ser contado

A frase é de Belfort e funciona como síntese do projeto — mas também como provocação endereçada ao público. O apagamento de Benjamim de Oliveira não foi um acidente de arquivo: foi o resultado previsível de uma historiografia que decidiu quem merecia ser lembrado. Nesse sentido, um musical não é apenas um espetáculo; é um ato de arquivamento alternativo, feito por corpos em cena e sustentado por bilheteria.

A pergunta que fica, quando as luzes acendem, é menos sobre Benjamim e mais sobre o presente: quantos artistas em atividade hoje estão sendo submetidos ao mesmo processo, apenas em ritmo mais lento? Enquanto a montagem se reescrever a cada temporada, ela mantém essa pergunta aberta — o que talvez seja a forma mais honesta de homenagear alguém que passou a vida reinventando o próprio ofício.


Serviço

Espetáculo: Benjamim – O Palhaço Negro
Local: Espaço Cia. da Revista — Alameda Nothmann, 1135, Campos Elíseos, São Paulo (SP)
Temporada: de 18 de agosto a 15 de setembro — terças-feiras, às 20h30
Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada)
Vendas: Sympla
Duração: 1h30, sem intervalo
Classificação indicativa: 10 anos
Redes sociais: @musicalbenjamim | @belfortprodutora



Perguntas frequentes

Quem foi Benjamim de Oliveira? Benjamim de Oliveira (1870–1954) foi o primeiro palhaço negro do Brasil e o criador do circo-teatro, formato que uniu técnicas circenses à dramaturgia teatral. Nascido em Pará de Minas (MG), filho de uma mulher escravizada, fugiu de casa aos 12 anos com um circo itinerante e tornou-se ator, compositor, diretor e empresário, com destaque no Circo Spinelli, no Rio de Janeiro.

Onde assistir ao musical “Benjamim – O Palhaço Negro” em São Paulo? No Espaço Cia. da Revista, na Alameda Nothmann, 1135, Campos Elíseos, às terças-feiras, às 20h30, até 15 de setembro.

Quanto custam os ingressos? R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada), à venda pela Sympla.

Qual a classificação indicativa e a duração do espetáculo? A classificação é de 10 anos e a duração é de 1h30, sem intervalo.

O musical já ganhou prêmios? Em 2025, recebeu duas indicações ao Prêmio Destaque Imprensa Digital (DID), nas categorias Destaque Letra Original e Musical Destaque – Voto Popular.


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