
Quando a Globo confirmou que Malhação vai ganhar uma versão em formato vertical, o detalhe mais revelador não foi a marca — foi quem está escrevendo. Emanuel Jacobina e Andréa Maltarolli, criadores originais da série, estão à frente do projeto. São roteiristas que passaram quase três décadas dominando a linguagem de uma teledramaturgia pensada para capítulos de 40 minutos, arcos de meses, tempo de tela suficiente para qualquer personagem respirar. Agora precisam reaprender o ofício para um formato em que cada capítulo inteiro dura menos que um comercial.
A regra do gancho obrigatório
Numa novela tradicional, o cliffhanger de fim de capítulo é um recurso — usado com intenção, num momento estratégico da semana. Numa novela vertical, ele deixa de ser recurso e vira estrutura: com episódios de 60 a 180 segundos, não existe espaço para um capítulo “de transição”. Cada corte precisa terminar em tensão suficiente para justificar o próximo clique, porque não há grade de programação prendendo o espectador — só o próprio gancho.
Personagens mais diretos, conflitos mais explícitos
O tempo reduzido elimina o espaço para nuance psicológica lenta. Personagens em novela vertical tendem a ser construídos em torno de um conceito único e reconhecível de forma quase imediata — o antagonista claramente hostil, o protagonista claramente injustiçado — porque o roteiro não tem os minutos necessários para construir ambiguidade moral sem perder o espectador no processo. Isso não é preguiça de escrita: é adaptação a uma restrição real de tempo, a mesma lógica que fez arquétipos como “CEO dominador” ou “herdeira humilhada” virarem recorrentes no gênero, como o CDSP já mapeou no artigo sobre a origem do formato.
O que Malhação testa: se dá para levar profundidade para o formato
A aposta mais interessante da Globo com Malhação não é comercial, é dramatúrgica: será que uma marca conhecida por acompanhar o amadurecimento de personagens ao longo de temporadas inteiras consegue preservar alguma dessa complexidade dentro de capítulos de menos de dois minutos? A resposta ainda não existe — o projeto está em desenvolvimento inicial —, mas a pergunta em si já indica que o mercado começou a testar os limites do formato, não só a explorar sua versão mais simples e comercial.
O que isso ensina (ou não) para quem quer escrever para TV
Roteiristas que aprenderam o ofício em formato longo não podem simplesmente encolher o que já sabem fazer — precisam de uma gramática nova, mais próxima da lógica de retenção de vídeo curto do que da construção clássica de arco dramático. Isso não invalida a experiência de quem vem da TV tradicional (a Globo está apostando justamente nisso, ao colocar os criadores de Malhação no comando), mas exige um reaprendizado real, não uma simples compressão do que já existia.
Perguntas frequentes
O roteiro de novela vertical é mais simples que o de uma novela tradicional?
Não é mais simples, é diferente — exige uma estrutura de gancho constante e personagens mais diretos, uma habilidade própria que não é apenas uma versão reduzida do roteiro tradicional.
Quem escreve as novelas verticais da Globo?
Varia por produção — no caso da versão vertical de Malhação, os próprios criadores originais da série, Emanuel Jacobina e Andréa Maltarolli, assinam o projeto.
É possível ter personagens complexos em uma novela vertical?
É um desafio real do formato — o tempo reduzido por episódio tende a favorecer personagens mais diretos e reconhecíveis de forma imediata, embora produções mais ambiciosas, como a versão vertical de Malhação, estejam testando esse limite.
Quanto tempo dura um capítulo de novela vertical?
Geralmente entre 60 e 180 segundos, dependendo da produção.
Leia também
Para o panorama completo: volte ao guia completo sobre novelas verticais, veja como a Globo estruturou sua entrada no formato, entenda os gatilhos que prendem o espectador a cada capítulo, a discussão sobre até que ponto isso é publicidade disfarçada e compare com o modelo chinês que originou o gênero.
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