
Robbie Williams sabe que ser uma estrela pop não significa apenas cantar grandes sucessos diante de milhares de pessoas. É preciso saber entretê-las e, acima de tudo, fazê-las se sentir parte do espetáculo. Em seu aguardado reencontro com o público brasileiro, realizado nesta terça-feira (13) no Nubank Parque, em São Paulo, o britânico mostrou que domina essa arte como poucos. Entre piadas, confissões pessoais, dancinhas, abraços e uma impressionante disposição para rir de si mesmo, o cantor transformou a apresentação em uma experiência que foi muito além da nostalgia.
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Depois de duas décadas de espera, Robbie finalmente voltou a encontrar seus fãs no Brasil, após fazer um único show em 2006, no Rio de Janeiro. Para muitos dos presentes, era a primeira oportunidade de ver de perto o ex-integrante do Take That. Para outros, a noite representava a chance de reencontrar um artista que marcou diferentes gerações. Independentemente da relação prévia com sua música, a apresentação deixou evidente que o talento de Robbie ultrapassa seu repertório, tendo como grande diferencial o entendimento que o palco é um espaço de troca, no qual a plateia funciona como parte fundamental.
Realizado pela 30e, o show integra a turnê de divulgação de BRITPOP (2026), álbum mais recente do cantor e um dos lançamentos de destaque do ano. O disco conta com produção de nomes como Karl Brazil e Owen Parker e traz uma colaboração de peso em “Rocket”, faixa que conta com a guitarra de Tony Iommi, lendário integrante do Black Sabbath. No entanto, embora o novo disco figure no setlist, Robbie não se prende à fase atual da carreira. O repertório alterna material inédito, sucessos que atravessaram décadas e releituras inesperadas, construindo uma narrativa que percorre diferentes momentos de sua trajetória.
O espetáculo de um artista que não se leva tão a sério
Com duas horas de duração, a apresentação foi pontual e tecnicamente bem executada, com uma produção precisa e banda afiada. Ainda assim, o que realmente deu personalidade à performance foi a maneira como o cantor inglês aproveitou a estrutura do espetáculo sem deixar que ela limitasse sua espontaneidade. Robbie, desde o início, dançou, brincou, provocou reações, improvisou nas conversas e encontrou oportunidades para tornar situações corriqueiras momentos de entretenimento.
Havia uma liberdade particular na forma como o britânico lida com a própria imagem. Em vez de sustentar a postura distante de um astro pop preocupado em preservar uma figura impecável, Robbie Williams pareceu disposto a desmontar a própria persona sempre que isso podia render uma boa piada ou aproximá-lo da plateia. Já veterano no universo da música, ele conhece o peso de sua trajetória e sabe o tamanho de suas conquistas. Justamente por isso, Robbie não precisou tratar a própria imagem com solenidade.
As coreografias características reforçaram tal disposição, especialmente durante “Rock DJ”. Lançada no fim dos anos 1990, a música continua associada a um dos clipes mais provocativos e memoráveis da carreira do cantor. Ao recuperar a faixa, Williams também resgatou o despojamento de uma época em que sua imagem ajudou a desafiar convenções do pop. No palco, a energia da canção encontrou um artista que ainda sabe brincar com o próprio personagem e fazer de referências do passado uma diversão no presente.
A capacidade de não se levar tão a sério, porém, não diminuiu a dimensão de sua presença. Robbie demonstrou segurança suficiente para alternar entre o humor escrachado e a emoção sem perder o controle da apresentação. A entrega vocal também teve papel importante na construção do espetáculo. Com a voz segura, Robbie passeou por diferentes estilos e mostrou desenvoltura para além do repertório autoral.
Entre os momentos foram de seu repertório que se destacaram estiveram as interpretações de “New York, New York”, associada à composição de John Kander, “Wonderwall”, do Oasis, e “My Way”, na versão popularizada por Paul Anka. A relação direta com os fãs, entretanto, foi um dos elementos mais marcantes da performance. Robbie desceu do palco em diferentes momentos para se aproximar da plateia e distribuir abraços, diminuindo a distância entre o artista e quem aguardou tantos anos por aquele reencontro. Em uma das passagens mais carinhosas, ele dedicou “She’s the One” a Ana Cecília, fã que chamou sua atenção na grade e revelou ter uma frase do cantor tatuada na pele.
O episódio sintetizou a maneira como Robbie conduz o espetáculo, atento ao que acontece ao redor e reagindo às pessoas para criar lembranças que não poderiam ser reproduzidas da mesma forma em outra apresentação. Sem roteiro previamente definido, o cantor, hoje aos 52 anos, buscava fazer o público sentir que aquele show tinha algo de particular.
Confissões pessoais, piadas e uma declaração de amor ao Brasil
Entre uma música e outra, Robbie conversou longamente com a plateia e compartilhou aspectos de sua vida pessoal. Em diferentes momentos, ele falou sobre o amor e a gratidão pela esposa, comentando a saudade dos quatro filhos durante as viagens. No palco, Williams disse que não os via há cerca de seis semanas e revelou que a apresentação na capital paulista seria a última até que ele voltasse para casa, tornando a data brasileira ainda mais especial. Em diálogo aberto, Robbie também mencionou o diagnóstico recente de doença de Parkinson de seu pai, Pete Conway, carinhosamente conhecido como Poppa Pete.
Por outro lado, uma das histórias que arrancaram gargalhadas foi a ocasião em que ele ligou para Noel Gallagher para se candidatar ao posto de novo vocalista do Oasis, quando a banda decidiu, em 2009, encerrar suas atividades, muito por conta de sua rivalidade com Liam Gallagher. Não à toa, “Wonderwall” entrou no repertório de Robbie como forma de provocação amistosa.
Na hora de “No Regrets”, Robbie apresentou toda a sua banda com referências da cena mundial. A sessão percorreu diferentes gêneros musicais, de “Ace of Spades”, do Motörhead, executada para o guitarrista Tom Longworth, a “Seven Nation Army”, do White Stripes, dedicada ao baixista Jeremy Meehan. Em seguida, o baterista Karl Brazil ganhou “Hips Don’t Lie”, enquanto as backing vocals Sara-Jane Skeete e Elle Cato dividiram os holofotes ao som de “Livin’ on a Prayer”, do Bon Jovi.
A homenagem à música brasileira ficou por conta de “Acenda o Farol”, clássico de Tim Maia apresentado pelo trio de metais formado por Ben Edwards, Mike Kearsey e Mark Brown. Já o tecladista Owen Parker recebeu “Take on Me”, do a-ha, e o guitarrista Gary Nuttall encerrou a sequência com “Hey Jude”, dos Beatles, assumindo também os vocais.
Já perto do final da apresentação, o tom ganhou contornos de declaração de amor ao Brasil. Robbie falou sobre a magia do país e afirmou que as cores brasileiras se destacam em qualquer lugar do mundo. O britânico aproveitou para manifestar seu ressentimento por nunca ter sido convidado para cantar no Rock in Rio e fez a plateia repetir suas palavras ao prometer que retornaria ao Brasil em dois anos.
Perto de 23h, Robbie Williams reservou para “Feel” e “Angels” o encerramento do show à altura da expectativa acumulada pela plateia ao longo das últimas décadas. As duas canções conduziram o público a um dos trechos mais emocionantes do espetáculo, quando os fãs se entregaram pela última vez e fizeram um lindo coro ecoar pelo estádio. Após o pedido público de Robbie, resta a Roberto Medina a missão de trazer o astro inglês para a Cidade do Rock em 2028!
Confira fotos e o setlist do show de Robbie Williams em São Paulo a seguir!










Setlist Robbie Williams em São Paulo (13/10/2026):
1. “Let Me Entertain You”
2. “Rocket”
3. “Rock DJ”
4. “Strong”
5. “Supreme”
6. “Pretty Face”
7. “Love My Life”
8. “Better Man”
9. Medley acústico / a cappella: “Tripping” / “Angels” / “Feel” / “Sexed Up” / “Candy”
10. “Wonderwall” (cover do Oasis)
11. “Something Beautiful”
12. “Millennium”
13. “Theme From New York, New York” (cover de John Kander)
14. “No Regrets”
15. Medley da banda: “Ace of Spades” (Motörhead) / “Seven Nation Army” (The White Stripes) / “Hips Don’t Lie” (Shakira) / “Livin’ on a Prayer” (Bon Jovi) / “Take on Me” (A-HA) / “Acenda o Farol” (Tim Maia) / “Hey Jude” (The Beatles)
16. “Come Undone”
17. “Kids”
18. “She’s The One”
19. “My Way” (cover de Paul Anka)
20. “Feel”
21. “Angels”
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