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Taylor Swift, Scooter Braun e a guerra pelos masters: Entenda tudo sobre a maior disputa da indústria musical

Taylor Swift, Scooter Braun e a batalha pelos masters: os bastidores de um dos maiores conflitos da indústria da música.

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Taylor Swift, Scooter Braun e a guerra pelos masters: Entenda tudo sobre a maior disputa da indústria musical
Taylor Swift vs Scooter Braun: Documentário ‘Bad Blood’ – Foto: Divulgação/MAX Brasil

No templo das grandes batalhas da cultura pop, poucas são tão complexas, pessoais e pedagogicamente cruéis quanto a guerra travada por Taylor Swift pelos direitos sobre suas próprias gravações.

Mais do que uma disputa por dinheiro, foi um conflito sobre narrativa, autonomia e o direito de uma artista de ser dona da própria história.

A história que você conhece provavelmente é a de que um homem mau, Scooter Braun, comprou a carreira de Taylor Swift contra a vontade dela. A realidade, no entanto, é um labirinto de contratos, desilusões e escolhas estratégicas que começou muito antes, com um outro homem: Scott Borchetta.

A Origem: Uma Promessa em Nashville

A semente do conflito foi plantada em 2004, no Bluebird Café, em Nashville. Scott Borchetta, um executivo da indústria country com fama de controlador e recém-demissionário da Universal, viu uma adolescente de 14 anos se apresentar.

Era Taylor Swift. Impressionado, ele fez uma promessa audaciosa: assim que fundasse sua própria gravadora, a contrataria.

Borchetta cumpriu a promessa. Em setembro de 2005, fundou a Big Machine Records. Taylor, desiludida com a burocracia da RCA Records (onde era a artista mais jovem), assinou um contrato de 13 anos para lançar seis álbuns.

Os termos eram padrão para a época: a gravadora financiaria a carreira e, em troca, ficaria com a posse dos masters ou as gravações originais. Taylor manteria os direitos autorais das composições.

Um detalhe crucial: o pai de Taylor, Scott Swift, investiu US$ 500 mil na Big Machine, adquirindo 3% da empresa. Um movimento visto mais como uma forma de garantir transparência e controle do que como um investimento puro.

Reba McEntire, Taylor Swift and Scott Borchetta – Foto: Rich Kalonick

Os “Sete Anos no Paraíso” e a Fissura

A era inicial, como Taylor mesmo sugere na letra de “Happiness” (“sete anos no paraíso”), foi de sucesso simbiótico. Fearless (2008) e Speak Now (2010) consolidaram-na como um fenômeno global.

A Big Machine, que nunca operou no vermelho, era sustentada por Taylor, que representava cerca de 80% de sua receita.

O ponto de virada criativa e o início do fim do paraíso foi em Red (2012). Taylor descreveu o álbum como um campo de batalha.

Ela queria mergulhar no pop, mas alega que Borchetta a limitou a apenas três faixas com o produtor Max Martin (“I Knew You Were Trouble”, “We Are Never Ever Getting Back Together”).

Borchetta, por sua vez, afirma que a mudança para o pop foi ideia dele. O conflito de versões começava ali.

Canções mais maduras, como a versão original de 10 minutos de “All Too Well”, foram arquivadas, possivelmente por não se alinharem à imagem “segura” que a gravadora cultivava.

A Emancipação Criativa e o Impasse Contractual

Em 2014, Taylor cortou o cordão umbilical. 1989 foi anunciado como seu “primeiro álbum de pop oficial”. Ela declarou: “Não vou ouvir ninguém da minha gravadora. Vou começar amanhã.” O disco, um sucesso estrondoso, foi gerido quase inteiramente por ela. A Big Machine havia perdido o controle criativo.

Com o fim do contrato se aproximando (o último álbum, Reputation, saiu em 2017), as negociações de renovação ficaram tensas. Taylor afirma que a única oferta concreta era um pacto faustiano: para cada novo álbum que gravasse para a Big Machine, ela readquiriria os masters de um álbum antigo. Era uma armadilha que a prenderia por mais uma década.

Em novembro de 2018, ela escolheu a liberdade. Assinou com a Republic Records em um contrato revolucionário, no qual seria dona de todos os seus masters futuros.

Em uma troca de mensagens com Borchetta, foi cordial, mas firme: “Tive uma escolha entre apostar no meu passado ou apostar no meu futuro. E, conhecendo quem eu sou, você já sabe qual eu escolhi.”

A Bomba: “Quando Seu Amigo Compra a Taylor Swift”

A paz durou seis meses. Em 30 de junho de 2019, foi anunciado que a Big Machine havia sido vendida para Scooter Braun e sua Ithaca Holdings por aproximadamente US$ 300 milhões. O pacote incluía os masters dos seis primeiros álbuns de Taylor.

Para Taylor, foi uma traição dupla. Scooter Braun não era um desconhecido. Ele era o empresário de Kanye West durante o episódio de “Famous” (2016), que ela descreveu como um “assédio profundamente doloroso”.

Ela alega que, sempre que mencionou Braun a Borchetta, “estava chorando”. Ele sabia.

A guerra de narrativas explodiu publicamente:

  • Taylor acusou Borchetta de tê-la impedido de comprar seus masters e de só tê-la avisado da venda quando o mundo já sabia.
  • Borchetta rebateu que ela teve chances e que seu pai, como acionista, foi avisado com antecedência. 
  • A equipe de Taylor respondeu que Scott Swift estava sob um acordo de confidencialidade (NDA) e não podia avisá-la.

O cerco se tornou ainda mais hostil quando Taylor alegou que a Big Machine a impedia de performar seus sucessos antigos no AMA de 2019 e de usar suas gravações em um documentário da Netflix.

A publicista da cantora, Tree Paine, divulgou e-mails que comprovavam a negociação travada, dando a Taylor uma vitória retórica crucial.

A Jogada de Mestre: “Taylor’s Version”

Scooter Braun, sob intensa pressão pública, vendeu os masters para o fundo de private equity Shamrock Capital em 2020 por cerca de US$ 300 milhões. Antes, ofereceu-os a Taylor por US$ 35 milhões. Ela recusou.

O motivo? O contrato de venda ainda garantia a Braun participação nos lucros futuros. Taylor não queria que ele ganhasse um centavo sequer. Em vez de comprar seu passado, ela decidiu recriá-lo.

Assim nasceu o projeto “Taylor’s Version”. Uma iniciativa sem precedentes: regravar seu catálogo inteiro, nota por nota, assumindo o controle total. Foi um movimento de xadrez genial.

Ao lançar Fearless (Taylor’s Version) em 2021, seguido por Red, Speak Now e 1989, ela não apenas deu aos fãs uma versão ethical para consumir, mas esvaziou o valor comercial dos masters originais.

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O Legado: Uma Lição Para a Indústria

A guerra pelos masters foi um divisor de águas. Taylor Swift transformou uma derrota contratual em uma vitória cultural e financeira histórica.

O projeto “Taylor’s Version” é mais do que uma série de álbuns; é um manifiesto sobre propriedade intelectual e autonomia artística. Ela provou que, na era do engajamento, a conexão com o fã e a narrativa autoral podem ser mais poderosas do que cláusulas contratuais.

Ensinou a uma nova geração de artistas a importância de ler a letra miúda e, acima de tudo, mostrou que às vezes a vingança mais doce não é processar, mas recriar—e, no processo, tornar o original irrelevante.

A batalha legal pode ter terminado, mas a revolução que ela começou no coração da indústria musical apenas começou.

Uma batalha vencida com estratégia e resiliência

Independentemente de quem você acredita estar certo, uma coisa é clara: Taylor Swift venceu essa batalha no tribunal da opinião pública, no mercado e na cultura.

Ela pegou uma situação desfavorável, transformou em uma campanha estratégica e criativa, reconstruiu sua discografia sob seus próprios termos e ainda influenciou positivamente a carreira de outros artistas.

Na letra de “It’s Time to Go”, lançada em 2021, ela sintetiza o sentimento da luta:

15 anos, 15 milhões de lágrimas, implorando até meus joelhos sangrarem.
Dei tudo de mim.
Ele não me deu nada.
E depois se perguntou por que fui embora.
Agora ele se senta em seu trono,
No seu palácio de ossos.
Orando à sua ganância,
Enquanto meu passado está congelado atrás de vidro.”

Taylor’s Version: o que ainda falta?

Até maio de 2025, Taylor Swift já lançou quatro das seis regravações prometidas de sua era Big Machine:

  • Fearless (Taylor’s Version) — abril de 2021
  • Red (Taylor’s Version) — novembro de 2021
  • Speak Now (Taylor’s Version) — julho de 2023
  • 1989 (Taylor’s Version) — outubro de 2023

Faltam agora apenas:

  • Reputation (Taylor’s Version)
  • Taylor Swift (Taylor’s Version) — também chamado pelos fãs de Debut (TV)

Reputation (Taylor’s Version): por que ainda não foi lançado?

O contrato original da Big Machine proibia Taylor de regravar seus álbuns antes de cinco anos da data de lançamento original. Como Reputation foi lançado em 10 de novembro de 2017, a regravação só pôde ser legalmente iniciada após novembro de 2022.

Apesar disso, Taylor ainda não anunciou oficialmente a data de lançamento, embora:

  • Vários rumores indiquem que a regravação já está pronta desde 2023, mas que ela optou por atrasar por motivos estratégicos;
  • indícios visuais e sonoros de que ela já está trabalhando na divulgação — fãs identificaram o uso de faixas regravadas de Reputation em anúncios, documentários e trilhas promocionais;
  • Na The Eras Tour, ela já apresentou versões ao vivo atualizadas de músicas como “Delicate”, “…Ready for It?” e “Look What You Made Me Do”, com arranjos diferentes.

Uma teoria recorrente é que Reputation (TV) será lançado logo após o encerramento da The Eras Tour, em novembro de 2025, como forma de encerrar a era Taylor’s Version com impacto.

Taylor Swift (Debut) (Taylor’s Version): o álbum que começou tudo

O álbum autointitulado de estreia, lançado em 2006, é o que falta para completar o ciclo da regravação total. Por ser o mais country dos seis, ele representa o começo simbólico e literal da jornada artística de Taylor.

Embora muitos fãs o consideram o menos popular entre os álbuns da Big Machine, seu valor:

  • Está fortemente ligado à memória afetiva dos fãs de longa data;
    Tem músicas icônicas como “Tim McGraw”, “Teardrops on My Guitar”, “Our Song” e “Should’ve Said No”;
  • Poderá ser repaginado com vocais mais maduros e produções refinadas, elevando o apelo das canções.

Alguns boatos sugerem que Debut (TV) poderá ser lançado simultaneamente ou logo após Reputation (TV), formando um encerramento duplo e conceitual da saga de regravações.

Regravar = reconquistar o controle

Com cada novo lançamento da série Taylor’s Version, Swift desvaloriza o catálogo antigo de forma ética e estratégica, transferindo o consumo para as novas versões e cortando o lucro de quem detém os masters anteriores.

Além disso, Taylor:

  • Estabeleceu precedente para artistas de gerações futuras renegociarem seus contratos com mais consciência e propriedade;
  • Tornou o debate sobre autoria, controle criativo e propriedade intelectual um tema global — inclusive debatido em faculdades de Direito e Business;
  • Construiu uma narrativa coesa, simbólica e financeiramente inteligente.
aylor Swift vs Scooter Braun: Documentário 'Bad Blood' - Foto: Divulgação/MAX Brasil

O legado de Taylor’s Version

Ao fim desta complexa jornada, percebe-se que ambos os lados têm narrativas incompletas ou contraditórias. Taylor, apesar de ter dramatizado alguns aspectos para reforçar sua posição pública, conseguiu transformar uma derrota contratual em uma vitória histórica. Scott Borchetta e Scooter Braun, por outro lado, mantêm suas versões, alegando sempre terem oferecido alternativas viáveis.

Contudo, é inegável que Taylor Swift venceu moralmente e financeiramente essa batalha, transformando sua experiência negativa em um dos maiores cases de sucesso artístico e empresarial da música contemporânea.


Independentemente da narrativa escolhida, a luta de Taylor Swift pelos seus masters redefiniu a relação entre artistas e gravadoras. O projeto “Taylor’s Version” é mais do que um movimento artístico – é uma reivindicação de autonomia criativa e financeira, que já mudou o modo como músicos lidam com seus próprios direitos.

E talvez o maior legado seja justamente este: ensinar às futuras gerações de artistas a importância de protegerem suas obras desde o início, nunca abrindo mão do controle sobre o que criam.

Mesmo após o fim da série de regravações, o projeto Taylor’s Version será lembrado como:

  1. Uma resposta criativa e comercialmente bem-sucedida a uma injustiça contratual;
  2. Um ato político e artístico de recuperação de identidade profissional;
  3. Uma lição para a indústria fonográfica sobre o poder do artista na era digital.

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