
Byung-Chul Han já dedicou livros ao cansaço, ao desejo, ao enxame digital e à transparência. Em Sem Respeito, lançado no Brasil pela Vozes, ele muda o eixo: em vez de partir de um sintoma (o esgotamento, a falta de eros), parte de uma palavra que a vida em rede esvaziou. A tese que sustenta o ensaio é simples de enunciar e mais difícil de aceitar: respeito não é gentileza nem tolerância, é distância. E é justamente a distância que o mundo digital elimina primeiro.
Diferente de Sociedade do Cansaço, que avança por aforismos curtos e encadeados, Sem Respeito se apoia com mais peso em outros autores — sobretudo em Richard Sennett e Immanuel Kant — para reconstruir uma história do respeito que vai dos cafés europeus do século 18 até os chats sem rosto de hoje. É um livro mais argumentativo e menos aforístico do que o público de Han costuma esperar, e essa mudança de registro é, ela mesma, parte do que vale discutir nesta resenha.
O argumento central: respeito é distância
Han abre o livro distinguindo duas ordens. Na ordem horizontal, o respeito é algo que se conquista: alguém “merece” respeito por desempenho, mérito ou luta. Na ordem vertical, o respeito é devido à pessoa simplesmente por ela existir — não é prêmio, é reconhecimento de uma dignidade que, para Kant, não tem preço nem equivalente. Han recupera a distinção kantiana entre preço e dignidade para argumentar que o capitalismo contemporâneo converteu quase tudo, inclusive a moral e a autenticidade, em mercadoria calculável. Cita como exemplo a prática de empresas de dados que classificam pessoas por valor econômico, chegando a descartar as de menor valor como refugo — uma imagem dura, usada para mostrar até onde vai a lógica do preço quando ela substitui a da dignidade.
Dessa base kantiana nasce o argumento que dá título ao livro: sem distância, não há respeito possível. O respeito exige que o outro permaneça, em alguma medida, inacessível — alguém que não se deixa consumir, tocar ou possuir por inteiro. Quando tudo se torna disponível e exibível, o respeito perde o solo em que poderia crescer.
Do café do século 18 ao chat sem rosto
A parte mais historicamente rica do livro reconstrói, com apoio direto em Richard Sennett, a transformação da esfera pública. No século 18, segundo Han, a vida pública era um teatro: as pessoas se comportavam com cortesia ritualizada, mantendo o pessoal e o íntimo fora de vista. Essa distância cênica, longe de ser hipocrisia, era o que permitia que estranhos convivessem sem atrito.
Rousseau aparece como o ponto de virada. Ao rejeitar a cortesia como máscara e exigir autenticidade e transparência do coração, ele inaugura a cultura da intimidade que, segundo Han, corrói progressivamente a vida pública ao longo dos séculos 19 e 20 — da sociabilidade psicologizada às plateias passivas da televisão, descritas por Sennett em The Fall of Public Man. A internet, para Han, radicaliza esse movimento: acaba com a distância entre o que é público e o que é pessoal, e o faz sem os ritos de cortesia que ao menos organizavam a exposição de antes. O resultado é uma sociedade em que, como escreve Han, “o nome nomeia o rosto” — e é justamente o rosto, a presença de alguém que não pode ser reduzida a um perfil, que a comunicação digital não sabe reconhecer.
Por que a autoridade também está em crise
O último capítulo argumentativo do livro amplia a discussão para a autoridade. Han vai à etimologia — auctoritas vem de auctor, aquele que funda, garante, dá origem — para separar autoridade de repressão. Autoridade, no sentido que ele defende, gera segurança e orientação; não precisa de violência para funcionar, e sua crise atual não liberta ninguém: gera desorientação, e a desorientação abre caminho para lideranças autoritárias que seduzem em vez de convencer.
O capítulo termina com uma página sobre inteligência artificial como candidata a mestre da era digital — um mestre sem autoridade real, sem aura de discernimento, que Han chama de antimestre. É uma ideia sugestiva, mas tratada de forma breve demais para se sustentar como argumento pleno; funciona mais como fechamento provocador do que como desenvolvimento.
Ficha do livro
- Título original: Ohne Respekt – Eine soziale Krise
- Edição brasileira: Sem Respeito: Uma Crise Social (Vozes, 2026)
- Tradução: Milton Camargo Mota
- Formato: ensaio breve, capa comum e ebook
Onde Sem Respeito se encaixa na obra de Han
Quem já leu Sociedade do Cansaço reconhece aqui a mesma figura do sujeito que se explora voluntariamente, convencido de que está se realizando: Han repete que a autoexploração neoliberal frustra, sob aparência de liberdade, a autonomia kantiana que promete imitar. Quem leu Agonia do Eros vai notar que o capítulo sobre identidade e alteridade retoma o mesmo problema por outro ângulo — a dificuldade de sustentar um outro que não seja apenas espelho ou extensão do próprio eu, agora discutida com Buber, Simone Weil e Alain Badiou.
Isso não torna Sem Respeito redundante. O livro tem um fio condutor próprio — respeito como distância, cortesia como forma, rosto como o que resiste à redução a perfil — que nenhum dos outros títulos de Han desenvolve com esse grau de amparo histórico e sociológico.
O que funciona — e o que soa repetido
A reconstrução histórica apoiada em Sennett é o ponto mais forte do livro: dá contorno concreto a uma tese que, em outros ensaios de Han, apareceria apenas como afirmação. A analogia entre cortesia e vida ritualizada também rende um dos poucos momentos em que Han concede algo positivo às formas sociais que costuma tratar com desconfiança.
Por outro lado, o livro tem trechos em que a voz autoral de Han cede lugar a uma sequência de citações longas — Kant, Sennett, Rousseau, Starobinski — encadeadas com comentários curtos. Para quem já acompanha o autor, isso pode soar mais como aparato de seminário do que como o ensaio aforístico e afiado de livros anteriores. E, como em boa parte da produção recente de Han, o argumento final sobre inteligência artificial chega rápido demais para o peso que o tema merece.
Vale a pena ler?
Para quem já leu Sociedade do Cansaço e Agonia do Eros e quer ver Han argumentar com mais amparo histórico do que de costume, sim — este é um dos ensaios mais bem fundamentados dele nos últimos anos. Para quem nunca leu o autor, Sem Respeito não é a porta de entrada mais fácil: a densidade de referências a Kant e Sennett pede alguma familiaridade prévia com o vocabulário de Han.
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Perguntas frequentes
Sem Respeito é uma boa porta de entrada para Byung-Chul Han? Não é a melhor. O livro pressupõe alguma familiaridade com o vocabulário do autor e dialoga bastante com Kant e Sennett. Para começar, o guia de leitura do site indica opções mais diretas.
O livro é uma continuação de Sociedade do Cansaço? Não formalmente, mas retoma conceitos próximos, como a autoexploração do sujeito de desempenho, aplicando-os agora ao tema específico do respeito e da distância social.
Quem é Richard Sennett, citado com tanta frequência no livro? Sociólogo americano autor de The Fall of Public Man e de obras sobre autoridade e respeito, usadas por Han como base histórica para reconstruir a decadência da esfera pública.
Existe edição em português de Portugal? Até a publicação desta resenha, a edição verificada é a brasileira, pela Vozes, com tradução de Milton Camargo Mota. Diferenças de tradução entre edições brasileiras e portuguesas já ocorreram em outros títulos de Han, então vale conferir a editora antes de comprar.
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