
Paul Sheldon termina seu romance e abre uma garrafa de champanhe. Está sozinho numa cabana no Colorado, como sempre faz quando escreve — sem telefone, sem internet (estamos em 1987), sem ninguém. Bebe demais, fica animado, decide dirigir de volta à cidade apesar da neve. Perde o controle do carro. Acorda com as pernas quebradas num quarto que não reconhece, com uma mulher que ele não conhece cuidando dele. A mulher se chama Annie Wilkes. Ela é, nas palavras dela, sua fã número um. E ela não vai deixá-lo ir embora.
Publicado em 1987, Misery é o romance mais enxuto de King — e para muitos críticos, o mais tecnicamente apurado. Sem sobrenatural, sem monstros, sem nada além de dois personagens num quarto e uma tensão que aumenta a cada capítulo.
A Metáfora do Vício
King admitiu que Misery é uma metáfora para sua relação com o vício. Annie Wilkes — que sequestra Paul Sheldon e o força a escrever um livro que ele não quer escrever — representa a cocaína e o álcool que sequestravam King nos anos 1980. Paul Sheldon, preso no quarto, incapaz de escapar, escrevendo para a fã que ameaça matá-lo caso ele não entregue o que ela quer, é King escrevendo em estado de dependência química.
É uma das autocríticas mais honestas que um autor já embutiu num romance popular — e funciona tanto como horror quanto como alegoria sem precisar ser lida de nenhum dos dois jeitos.
Annie Wilkes
Annie Wilkes é um dos melhores vilões da literatura popular americana. O que a torna aterrorizante não é a violência — é a lógica. Annie opera dentro de um conjunto de regras absolutamente coerentes com a visão de mundo dela. Ela ama Paul Sheldon. Ela quer que ele escreva um bom livro. Ela vai fazer o que for necessário para que isso aconteça. A loucura de Annie é perfeitamente funcional dentro dos próprios parâmetros.
A Adaptação e o Oscar
Rob Reiner dirigiu a adaptação em 1990, com James Caan como Paul Sheldon e Kathy Bates como Annie Wilkes. Kathy Bates ganhou o Oscar de melhor atriz — o único Oscar por uma performance em adaptação de Stephen King. A cena do tornozelo (diferente do livro, mas igualmente eficaz) é uma das mais lembradas do cinema de horror dos anos 1990.
Veja o guia completo de Stephen King e por onde começar. Continue acompanhando o Cansei De Ser Pop.
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