
Quem termina “A Empregada” às três da manhã e imediatamente abre o aplicativo da livraria em busca do próximo título sabe do que se trata: Freida McFadden criou um vício de leitura específico, feito de capítulos curtos, narradoras que escondem mais do que contam e um final que obriga a voltar duas páginas para conferir se aquilo realmente aconteceu. O problema é que a bibliografia dela, por maior que seja, tem fim — e o campeão de vendas do momento não é o único nome capaz de produzir esse efeito.
Esta lista reúne autoras (e um caso de autor) que dominam o mesmo terreno: o thriller psicológico e doméstico com narração não confiável, sucesso comprovado no BookTok e, o mais importante, obras já publicadas em português no Brasil. Nenhum título aqui é hipotético — todos têm edição nacional confirmada, o que significa que dá para sair direto da lista para o carrinho de compras.
O que faz um livro “parecido” com Freida McFadden
Antes de emendar a próxima leitura, vale entender o que exatamente se está procurando. O “efeito McFadden” não é sobre crime em si — é sobre a arquitetura da mentira. Alguns elementos se repetem com tanta frequência nesses livros que praticamente formam um subgênero:
- Narrador pouco confiável em primeira pessoa. O leitor só sabe o que o narrador decide contar, e o narrador tem motivos para não contar tudo.
- Cenário doméstico ou de vizinhança. Casas, condomínios, empregos de babá ou enfermeira — espaços que deveriam ser seguros e não são.
- Estrutura de capítulos curtos e ganchos constantes, pensada para leitura compulsiva (o famoso “só mais um capítulo”).
- Reviravolta que reorganiza tudo o que veio antes, obrigando a reler mentalmente a trama inteira.
- Popularidade orgânica no TikTok e no Bookstagram, muitas vezes anterior à cobertura da imprensa tradicional — o buzz nasce do leitor, não da resenha.
As dez autoras a seguir atendem a pelo menos três desses critérios, e a maioria cumpre todos.
As autoras (com justificativa por título)
B.A. Paris — Autora britânica que praticamente abriu esse mercado antes de McFadden. Em Entre Quatro Paredes (título brasileiro de “Behind Closed Doors”), a narradora Grace descreve um casamento perfeito por fora e uma prisão doméstica por dentro — o parentesco com o mecanismo de manipulação de “A Empregada” é direto. Tem ainda À Beira da Loucura, sobre uma mulher que passa a duvidar da própria memória.
Lisa Jewell — Publicada pela Intrínseca, é uma das poucas do grupo com base de leitoras já consolidada no Brasil. A Família Perfeita e o mais recente Nada Disso É Verdade misturam múltiplos pontos de vista e segredos de família que remetem ao gosto de McFadden por parentes que não são quem parecem.
Ruth Ware — Publicada pela Rocco, ela transporta o suspense doméstico para cenários fechados e claustrofóbicos, como em Em um Bosque Muito Escuro (uma despedida de solteira isolada na neve) e A Morte da Sra. Westaway. A memória do narrador, muitas vezes turva por trauma ou álcool, é peça central do enredo — mesma engrenagem que sustenta boa parte da obra de McFadden.
Shari Lapena — A canadense é talvez a mais próxima em espírito: capítulos curtos, ritmo acelerado e reviravoltas de vizinhança. O Casal que Mora ao Lado e Alguém que Você Conhece, ambos pela Record, têm o mesmo apelo de “quero terminar em uma tarde” que caracteriza os best-sellers de McFadden.
Karin Slaughter — Um degrau acima em crueza e violência, mas com a mesma obsessão por segredos de família que explodem sob pressão. Esposa Perfeita e Garota Esquecida, da HarperCollins Brasil, entregam protagonistas femininas complexas e reviravoltas que reescrevem a moralidade dos personagens.
Alex Michaelides — A Paciente Silenciosa, pela Record, é hoje quase unanimidade entre quem gosta de McFadden: uma psicoterapeuta tenta decifrar por que uma paciente parou de falar depois de matar o marido, e a narração alterna entre pontos de vista de um jeito que engana o leitor até o fim.
Lucy Foley — Se o que atrai em McFadden é a ideia de “todo mundo neste grupo tem um motivo”, Foley entrega isso em formato de mistério de círculo fechado. A Lista de Convidados, pela Intrínseca, junta um casamento em ilha isolada, múltiplos narradores e um cadáver cuja identidade só se revela no fim.
Claire Douglas — Menos conhecida no Brasil, mas com catálogo crescente por aqui: Irmãs e o mais recente A Outra Irmã (Editora Trama) exploram rivalidade familiar e memórias distorcidas — o tipo de suspense doméstico britânico que dialoga diretamente com o universo de McFadden.
Gillian Flynn — Referência inevitável: Garota Exemplar (Intrínseca) é, para boa parte da crítica, o livro que redefiniu o thriller de narrador não confiável na literatura comercial contemporânea. Quem gosta de McFadden e ainda não leu Flynn está pulando a origem do gênero.
Colleen Hoover (com ressalva) — A maior parte da obra de Hoover é romance dramático, não thriller, e por isso não é uma comparação direta. A exceção é Verity, lançado pela Galera Record: um manuscrito encontrado dentro da história, uma narradora com motivos para mentir e um final ambíguo que gerou debates inteiros no TikTok — aí sim, terreno reconhecível para fãs de McFadden.
Narradoras não confiáveis
Se o que fisga em McFadden é a sensação de estar sendo enganado pela própria voz que narra a história, o núcleo duro dessa lista é B.A. Paris, Ruth Ware, Alex Michaelides, Gillian Flynn e o Verity de Colleen Hoover. Em todos esses casos, a primeira pessoa não é um recurso neutro — é a arma da trama. O leitor recebe informação filtrada por alguém com interesse em esconder, distorcer ou simplesmente não perceber a própria participação nos eventos. É esse desconforto controlado, e não o crime em si, que sustenta o gênero.
Reviravoltas domésticas e de vizinhança
Outro bloco da lista aposta menos na fraude psicológica e mais no “isso poderia acontecer na casa ao lado”: Shari Lapena, Lisa Jewell, Karin Slaughter, Claire Douglas e Lucy Foley constroem tensão a partir de espaços comuns — condomínios, festas de família, casamentos, vizinhanças de classe média. A ameaça não vem de um serial killer distante, vem de dentro do círculo social do leitor, o que torna o susto mais próximo e, paradoxalmente, mais confortável de consumir em série.
Qual ler primeiro?
Não existe ordem obrigatória, mas dá para escolher pelo gancho:
- Quem terminou A Empregada e quer o parentesco mais próximo em tom e estrutura deve começar por B.A. Paris (Entre Quatro Paredes) ou Shari Lapena (O Casal que Mora ao Lado).
- Quem prefere cenários isolados e elenco fechado de suspeitos vai preferir Lucy Foley (A Lista de Convidados) ou Ruth Ware (Em um Bosque Muito Escuro).
- Quem busca o thriller que virou referência cultural — o tipo de livro que todo mundo já citou em algum lugar — deve ir direto para Gillian Flynn (Garota Exemplar) ou Alex Michaelides (A Paciente Silenciosa).
- Quem só conhece Colleen Hoover pelo lado romance e quer testar o lado thriller da autora deve experimentar Verity antes de qualquer coisa.
- Quem já devorou os nomes mais óbvios e quer ampliar o repertório com vozes menos exploradas por aqui pode arriscar Claire Douglas (A Outra Irmã) ou Karin Slaughter (Garota Esquecida).
Perguntas frequentes (FAQ)
Colleen Hoover escreve o mesmo tipo de livro que Freida McFadden?
Não exatamente. A maior parte da obra de Hoover é romance com temas dramáticos, enquanto McFadden trabalha quase exclusivamente com thriller psicológico. A exceção é Verity, que se encaixa de fato na categoria de suspense com narradora não confiável.
Qual dessas autoras é a mais parecida com Freida McFadden?
Em estrutura e ritmo de leitura, B.A. Paris e Shari Lapena são as comparações mais diretas: capítulos curtos, suspense doméstico e reviravoltas centradas em relações íntimas.
Esses livros estão disponíveis em português no Brasil?
Sim — todos os títulos citados neste artigo têm edição brasileira publicada por editoras como Intrínseca, Record, Rocco, HarperCollins Brasil e Editora Trama.
Esses livros fazem parte de séries?
A maioria são romances independentes (standalones), o que facilita começar por qualquer um sem compromisso de continuidade. Karin Slaughter é a exceção mais notável, com personagens recorrentes entre alguns títulos de sua bibliografia mais ampla.
Por que essas autoras fazem tanto sucesso no TikTok?
O fator comum é a leitura rápida e viciante somada a um final que gera discussão — características que favorecem vídeos de reação e recomendações espontâneas, o mesmo mecanismo que impulsionou Freida McFadden.
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