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Ela Tem Olhos de Céu: Resenha do Livro Vencedor do Jabuti

Sebastiana e o dom sobre a chuva que rendeu o Prêmio Jabuti à autora.

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Ela Tem Olhos de Céu: Resenha do Livro Vencedor do Jabuti
Ela Tem Olhos de Céu: resenha do livro vencedor do Prêmio Jabuti 2013.

Antes de conquistar leitores adultos com romances de realismo mágico, Socorro Acioli já havia vencido o Jabuti com uma narrativa infantojuvenil em versos sobre uma menina capaz de controlar o clima

Muito antes de A Cabeça do Santo virar sinônimo do nome Socorro Acioli, a autora já tinha em mãos um dos prêmios mais cobiçados da literatura brasileira. Em 2013, Ela Tem Olhos de Céu — lançado no ano anterior, em 2012 — levou o Prêmio Jabuti na categoria infantojuvenil, consolidando a autora, então ainda mais conhecida no circuito da literatura infantojuvenil do que no mercado adulto, como um nome a se observar de perto.

O livro é uma narrativa em versos, ilustrada por Mateus Rios, o que já o diferencia de boa parte da produção infantojuvenil brasileira: contar uma história inteira através de poesia narrativa exige um domínio de ritmo e economia de linguagem que poucos autores dominam com naturalidade. Socorro Acioli usa esse formato para construir a trajetória de Sebastiana, uma menina cujos olhos incomuns desencadeiam fenômenos naturais em seu vilarejo nordestino.

Sebastiana e os olhos que mudam o clima

A protagonista do livro é Sebastiana, uma menina que carrega, literalmente nos olhos, um poder que ultrapassa qualquer coisa que ela ou as pessoas ao redor dela conseguem controlar por completo: a capacidade de influenciar a seca e a chuva no vilarejo onde vive. É uma premissa que poderia facilmente escorregar para o exagero fantástico, mas Socorro Acioli mantém os pés fincados na realidade do sertão nordestino, onde a chuva — ou a falta dela — nunca é um detalhe de pano de fundo, e sim uma questão de sobrevivência.

Ao colocar esse poder nos olhos de uma criança, a autora cria uma imagem poderosa: os olhos, normalmente associados à observação passiva, tornam-se aqui uma força ativa capaz de transformar o ambiente à sua volta. É um recurso simbólico econômico e eficiente, típico de quem escreve pensando tanto na sonoridade quanto na imagem que cada verso evoca.

Narrativa em versos e a cultura nordestina

A escolha pela poesia narrativa não é apenas um exercício de estilo — ela aproxima o livro de uma tradição oral muito presente na cultura nordestina, onde histórias em verso, cordéis e cantigas fazem parte do repertório popular há gerações. Ao adotar essa forma, Socorro Acioli não apenas conta a história de Sebastiana, mas também presta uma espécie de homenagem estrutural à região que retrata.

O cenário do vilarejo nordestino não é pano de fundo decorativo: ele molda o enredo inteiro, já que é a relação da comunidade com a seca e a chuva que dá sentido ao poder de Sebastiana. Sem esse contexto cultural específico, a história perderia boa parte de sua força simbólica.

Bênção ou maldição? A ambiguidade central

O que torna Ela Tem Olhos de Céu mais interessante do que uma simples fábula sobre um dom mágico é a ambiguidade que a autora mantém ao longo da narrativa: o poder de Sebastiana é tratado tanto como bênção quanto como maldição, dependendo de quem observa e das consequências que ele traz. Essa recusa em simplificar o dom da protagonista como algo puramente positivo ou puramente perigoso é o que dá ao livro uma camada de complexidade rara em narrativas infantojuvenis desse porte.

Essa ambivalência também reflete algo mais amplo sobre como comunidades pequenas lidam com quem foge do comum — a diferença de Sebastiana desperta tanto fascínio quanto desconfiança, um retrato bastante honesto de dinâmicas sociais reais, mesmo dentro de uma história com elementos fantásticos.

Por que ganhou o Jabuti

O Prêmio Jabuti de 2013 reconheceu em Ela Tem Olhos de Céu justamente essa combinação pouco comum: uma narrativa em versos tecnicamente bem construída, um retrato sensível e não estereotipado da cultura nordestina, e uma protagonista cujo poder levanta perguntas mais complexas do que o formato infantojuvenil costuma permitir. É um livro que respeita a inteligência do leitor jovem sem infantilizar os temas que aborda — luto, diferença, pertencimento — e isso, somado à qualidade formal dos versos, explica por que o júri do Jabuti destacou a obra entre tantas outras daquele ano.

Vale a pena ler?

Vale, tanto para o público infantojuvenil ao qual foi originalmente destinado quanto para leitores adultos curiosos sobre as raízes da obra de Socorro Acioli. É um livro rápido de ler, mas que carrega imagens fortes e uma reflexão sobre poder e diferença que ultrapassa a faixa etária a que se dirige. Para quem já leu os romances mais recentes da autora e quer entender de onde vêm suas obsessões temáticas — o sertão, a fé popular, o sobrenatural no cotidiano —, Ela Tem Olhos de Céu é uma peça-chave.

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Perguntas Frequentes

Ela Tem Olhos de Céu tem spoilers nesta resenha?
Não. A resenha descreve a premissa de Sebastiana e os temas centrais do livro, sem revelar como a história se desenvolve ou termina.

Por que Ela Tem Olhos de Céu ganhou o Prêmio Jabuti?
O livro venceu o Jabuti de 2013 na categoria infantojuvenil pela qualidade da narrativa em versos, pelo retrato sensível da cultura nordestina e pela complexidade com que trata o poder da protagonista, tratado como bênção e maldição ao mesmo tempo.

Qual é o poder de Sebastiana no livro?
Sebastiana tem olhos incomuns que desencadeiam fenômenos naturais em seu vilarejo, com a capacidade de influenciar a seca e a chuva — um poder tratado com ambiguidade ao longo da narrativa.

Ela Tem Olhos de Céu é indicado para qual faixa etária?
É um livro infantojuvenil, mas sua narrativa em versos e a complexidade temática também agradam leitores adultos interessados na obra de Socorro Acioli.

Quem ilustrou Ela Tem Olhos de Céu?
As ilustrações são de Mateus Rios, que trabalhou ao lado de Socorro Acioli na construção visual da história de Sebastiana.

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