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Agonia do Eros: o que Byung-Chul Han diz sobre amor, desejo e o fim do outro

Publicado em 2012, antes do auge dos aplicativos de namoro, o ensaio antecipou o desconforto que hoje tem nome: a sensação de estar sempre disponível para alguém e nunca disponível para ninguém.

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Agonia do Eros: o que Byung-Chul Han diz sobre amor, desejo e o fim do outro
Análise da obra ‘Agonia de Eros’, do filósofo Byung-Chul Han, explorando as reflexões sobre o amor, o desejo e a mercantilização das relações no mundo contemporâneo. Foto: Reprodução Edição: Agência CSP

Há um comportamento que quase toda pessoa que usa aplicativo de namoro reconhece: percorrer perfis por vinte minutos, dar match em três, não conversar com nenhum e fechar o aplicativo com uma vaga sensação de perda de tempo e sem conseguir explicar exatamente o que se perdeu:
Não foi rejeição.
Não foi frustração.
Foi outra coisa.

Byung-Chul Han escreveu um livro sobre essa outra coisa antes de ela virar rotina. Agonia do Eros saiu na Alemanha em 2012 e curiosamente o Tinder foi lançado no mesmo ano, mas chegou ao Brasil pela Editora Vozes apenas em 2017.

São menos de cem páginas, e a tese é desconfortável na medida certa: o problema do amor contemporâneo não é encontrar alguém. É que o outro, como categoria, está sumindo.

O inferno do igual

O conceito central do livro é esse: o inferno do igual.

Han parte de uma premissa clássica: o erótico depende da alteridade. Amar exige alguém que não seja eu, que não caiba na minha lógica, que resista, que me tire do lugar. O outro, nessa definição, não é um complemento é uma interrupção. Ele nega alguma coisa em mim, e é essa negação que produz desejo.

A cultura contemporânea, argumenta Han, produz o oposto. Tudo é otimizado para reduzir atrito: algoritmos que sugerem quem provavelmente vai me agradar, perfis editados para maximizar aprovação, feeds que devolvem versões de mim mesmo. O resultado é um ambiente em que só encontramos o semelhante e onde o semelhante se acumula sem nunca virar encontro.

O nome disso, para Han, é narcisismo. Não vaidade, que é outra coisa: narcisismo no sentido de um eu que perdeu a fronteira, que afoga o mundo em si mesmo, que não consegue mais distinguir onde termina e onde começa alguém. E um eu sem fronteira não tem como se apaixonar, porque não tem em que esbarrar.

Por que o livro abre com um filme

Agonia do Eros começa por uma leitura de Melancolia, de Lars von Trier, o filme de 2011 em que um planeta se aproxima da Terra enquanto uma protagonista deprimida atravessa o próprio casamento como quem cumpre tabela.

A escolha não é decorativa. Han lê a depressão do filme como o retrato exato do narcisismo que descreve: um estado em que o mundo perde consistência porque o sujeito não consegue mais investir em nada fora de si. E lê a chegada do planeta a catástrofe, o absolutamente outro, como aquilo que devolve à protagonista a capacidade de agir. É a negatividade retornando de fora, já que não podia mais vir de dentro.

É um bom exemplo do método de Han: ele não analisa cultura pop como ilustração de um argumento pronto. Ele pensa através dela.

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Pornografia, transparência e o fim do fantasma

O capítulo mais provocador do livro trata da pornografia e não pelas razões morais habituais.

Para Han, o problema do pornográfico não é o excesso de sexo, é o excesso de exposição.

O erótico depende do que não se vê: do véu, do adiamento, do que fica sugerido. É a ausência que produz fantasia.

Quando tudo é mostrado, iluminado e disponível, a imaginação fica sem trabalho e sem imaginação não há desejo, apenas consumo.

Han estende esse raciocínio para muito além do sexo. Uma cultura da transparência total: perfis abertos, localização compartilhada, disponibilidade permanente, nada em suspenso; é uma cultura que elimina sistematicamente as condições da atração. O que a torna eficiente é exatamente o que a torna erótica de menos.

Onde o argumento cambaleia

Vale ler o livro com resistência em pelo menos dois pontos.

O primeiro é a idealização implícita do passado. Han descreve o amor como experiência de ferida, entrega e transformação, sem discutir com muito rigor o que essa concepção historicamente sustentou: relações desiguais, permanência forçada, dependência econômica.

Uma parte do que ele lamenta como “fim da alteridade” foi, para muita gente, ganho de autonomia. O direito de sair de um vínculo insustentável não é o mesmo fenômeno que o consumo de perfis.

O segundo é a ausência de mediação social. Han fala de “o sujeito contemporâneo” no singular, como se a experiência amorosa fosse a mesma em qualquer lugar, classe ou configuração afetiva. O livro não conversa com literatura empírica sobre relacionamentos e ignora que boa parte do que ele descreve como esvaziamento erótico pode ser lido como reorganização e não desaparecimento e das formas de vínculo.

Isso não anula a intuição principal, que continua afiada. Só sugere que Agonia do Eros funciona melhor como provocação do que como descrição definitiva.

O que sobra depois de fechar o livro

Han não oferece receita. Não há capítulo final com cinco passos para reencontrar o desejo, e a proposta implícita é quase austera: aceitar a ferida, tolerar a demora, permitir que alguém seja incompreensível.

A parte mais útil talvez seja um deslocamento de pergunta. A conversa corrente sobre apps de namoro costuma girar em torno de eficiência e como otimizar o perfil, como filtrar melhor, como economizar tempo.

Han sugere que a eficiência é o problema, não a solução. Um encontro que não custa nada tende a não valer nada, porque o valor, na leitura dele, se produz justamente na resistência.

Fica a suspeita incômoda: e se a dificuldade de encontrar alguém não vier de escassez de opções, mas do inverso — de um sistema que nos treinou tão bem a comparar que desaprendemos a escolher?

Ficha do livro

  • Título original: Agonie des Eros (Alemanha, 2012)
  • Edição brasileira: Agonia do Eros, Editora Vozes, Petrópolis, 2017
  • Formato: ensaio curto, disponível em edição impressa e digital
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Perguntas frequentes

Do que trata Agonia do Eros? Da tese de que a experiência amorosa depende da alteridade — de um outro que resista — e de que a cultura contemporânea, ao eliminar atrito e diferença, torna essa experiência cada vez mais rara. Han chama esse ambiente de “inferno do igual”.

O que é o “inferno do igual”? O estado em que tudo ao redor é semelhante, curado e adaptado ao próprio perfil, de modo que o sujeito só encontra versões de si mesmo. Sem diferença, não há desejo — apenas consumo.

Byung-Chul Han fala de aplicativos de namoro no livro? Não diretamente. Agonia do Eros foi publicado em 2012 e trata de pornografia, transparência, narcisismo e desempenho. A aplicação a aplicativos é uma leitura que o próprio argumento permite.

Agonia do Eros é difícil de ler? É curto e direto, mas denso: Han conversa com Hegel, Lévinas, Barthes e Eva Illouz sem apresentá-los. Dá para ler sem esse repertório, ainda que ele acrescente bastante.

Qual ler primeiro: Sociedade do Cansaço ou Agonia do Eros? Sociedade do Cansaço, que apresenta a tese central de Han. Agonia do Eros aplica essa tese à vida amorosa e rende mais depois dela.

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